Fonte:Jornal Ultima Hora (Caderno Revista)
Data: 27/10/83
Repórter/Jornalista: Cecília Cavalcanti
Título: Fagner: Um cantador acadêmico

Mais que um nordestino, Raimundo Fagner é um cantador das coisas do Nordeste. Como qualquer retirante ele deixou o seu Ceará para vencer no Sul Maravilha. Isso, há 10 anos, tempo durante o qual, à temática típica dos cantadores, ele juntou suas raízes mais profundas - os mouros, os ciganos, os íberos. Reconhecido nacionalmente, Fagner viverá um grande momento na próxima segunda-feira, quando tomar posse na cadeira número quatro do Bar Academia (TV Manchete), que tem como patrono outro grande cearense: Humberto Teixeira, autor de, entre outras, Asa Branca. Quando as veias começam a saltar pelo pescoço, é a hora em que a emoção, em Fagner, está mais forte. O público, sabendo disso, canta junto. Há 10 anos ele vem colocando poesia em nossos ouvidos, usando esta emoção e este lamento como grande arma comunicativa. "Tenho formação árabe e sou cearense. Logo, sou um chorão. Mas estou mudando. Por exemplo, tinha o hábito de cantar de olhos fechados e vários teipes de televisão não puderam ser aproveitados exatamente por causa disso." Mas se há preocupações quanto à forma de se apresentar, Fagner ainda é dominado, algumas vezes, por esta emoção. Assim foi na estréia do show, no Canecão, de Luis Gonzaga Júnior, autor da música Guerreira Menino (Um homem também chora) que puxa seu LP Palavras de Amor. Assim que foram dados os acordes do bis, Fagner subiu ao palco e, emocionando o público, deu seu recado. "Fiquei emocionado com a interpretação de Gonzaguinha. Quando ele resolveu dar o bis, não resisti e subi no palco. A emoção se justifica, pois esta música foi transada depois de muitas conversas entre nós dois. Aliás, o trabalho em equipe é uma descoberta recente de Fagner. E ele justifica assim uma mudança em seu trabalho. "Quando comecei minha carreira, sem pressa, acreditava em mim de maneira solitária. Só depois de 10 anos é que descobri o trabalho em equipe e passei a acreditar nas outras pessoas." Deste modo, surgem grandes amizades, não necessariamente só com pessoas ligadas à música. Foi no futebol, outra de suas grandes paixões - é tricolor não-fanático -que surgiu uma das mais badaladas: com Zico, ex-jogador do Flamengo, atualmente na Itália. "Ele é realmente um grande amigo. E não somos amigos apenas pelo nosso gosto pelo futebol, pois apesar de craque - já joguei ao lado de muita gente boa sem fazer feio -, depois que se toma conhecimento da política interna desses clubes, fica-se desencantado." A ligação de Fagner com o Nordeste não se limita, ao contrário do que pensam muitos, às apresentações na região e ao forte sotaque. Dele nasceu a idéia da campanha em prol do Nordeste feita pela TV Globo. "Tudo começou com uma conversa entre mim e Marcos Lázaro, que me convidou para fazer o show. Eu lhe disse que só o faria se a renda fosse destinada aos nordestinos. O Lacet gostou da idéia e criou a campanha, que alertou povo e autoridade para a miséria daquele povo. O Nordeste, aliás, para Fagner, deveria ser separado do restante do Brasil, pois ainda "não está impregnado pelo câncer internacional, que faz com que as emissoras de rádio não cumpram a lei da obrigatoriedade de se executar 50% de músicas nacionais. No bojo da questão está o rock feito, segundo muitos, apenas porque está na moda, numa luta muitas vezes injusta. "Não dá para navegar contra a maré-diz ele- e não dá pra mudar as coisas. Sou contra a descaracterização de qualquer trabalho. A arte, ao contrário do que se pensa, é um sistema de divulgação misturado com a criatividade do artista. A gente tem que se virar para não cair no esquecimento, ser marginalizado. Hoje em dia, não há como ser contra qualquer coisa e constata-se que o samba está marginalizado e a cultura sem poder e autonomia. Não sou contra o rock. Gosto até de dançar. Acho que deve ser tocado." O estrangulamento do mercado fonográfico faz com que Fagner não acredite no surgimento de novos valores. Entre as causas de tal fenômeno, aponta os problemas com as gravadoras e divulgadoras e a credibilidade da música nacional. Por isso, afirma, o trabalho tem que ser forte, com uma grande força de público. A divulgação, na medida do possível, tem que ser perfeita, para permitir o desenvolvimento do processo. Ouso dizer que o pessoal que está começando não vai conseguir grande coisa. Quando comecei, também era muito difícil, mas havia um certo romantismo. As pessoas eram mais abertas." Se foi há pouco tempo que Fagner passou a acreditar nas pessoas, também é verdade que há muito ele gosta de cantar com músicos de linha, muitas vezes, bem diferente da sua. Nos encontros musicais promovidos em sua carreira, um dos mais importantes foi com a argentina Mercedes Sosa, em especial da TV Globo. Aliás, o encontro com Mercedes surgiu quando o cantor/compositor produziu um disco praticamente com versos em língua espanhola, de escritores e poetas como Garcia Lorca e Ataualpa Iupanqui. No Bar Academioa de segunda-feira, além de homenagear o patrono Humberto Teixeira, Fagner será homenageado por Cauby Peixoto, Chico Buarque, Ivan Lins, Joanna e o Conjunto Céu da Boca. Pessoas em quem, sem dúvida alguma, confia demais.