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Fonte: Carderno de Turismo do Jornal do Brasil
Data: 1982
Autor: Fagner
Título: Eu conheço um lugar: Sevilha
Encontrar Sevilha foi para mim um angúrio, uma sorte, uma coisa que acontece por acaso - mas pode acontecer. Estive lá a primeira vez há seis anos, à procura de um casal de cantores gitanos, Lola e Manuel, e me encantei. Depois, voltei muitas vezes - e nunca mais esqueço Sevilha. É uma cidade para quem, como eu, gosta de música. Há música em toda parte, aquela música andaluza, flamenca, sofrida e apaixonada, mas também alegre. Pode ser dançada, mas é preciso gemer, gritar. É também uma cidade para se andar, o que eu faço sempre que vou lá pelo bairro da Triana, uma espécie de Baixo Leblon, onde se toma muito vinho e se come marisco bem temperado. Há ruas tã estreitas que só um carro pode passar. Sevilha fica a 400 quilômetros da capital da Espanha, Madri, mas numa região bem diferente, a Andaluzia, que João Cabral já disse em diversas poesias lindíssimas que tem algo a ver com o Nordeste brasileiro. Há um estilo de vida, há os cantadores que são como os nossos repentistas e há o flamenco, que seria o forró deles. A música mistura tudo e canta-se e dança-se por toda e qualquer razão, da morte à vida. Uma das coisas mais lindas que vi na vida foi um garotinho de uns 8 anos que começou a dançar e logo havia só uma guitarra tocando e as palmas das pessoas que marcam o ritmo. Quando eu era menino, queria ser cantor e queria ser Joselito, um menino espanhol que cantava umas coisas cafoninhas, mas todo mundo não tem uma parte cafoninha ? Meu pai é libanês e desde cedo me acostumei com esse tipo de música onde o cantor parece que vai arrebentar de paixão. Além do flamenco, ouve-se em Sevilha outro tipo de música, a sevillana, que é mais tradicional, embora seja tocada da rua à discoteca. Depois de conhecer Sevilha e, especialmente o bairro da Triana, acabei compondo uma música, a Trianera. E fiquei muito feliz quando Ricardo Pacón, o maior produtor de música flamenca na Espanha, disse que pela sua força, ela é um marco entre antes e depois do flamenco. A Trianera faz parte daquele disco, Traduzir-se, título da poesia do Ferreira Gullar, que musiquei, e que vale sempre relembrar: "Uma parte de mim é todo mundo/Outra parte é ninguém, fundo sem fundo/Uma parte de mim é multidão/Outra parte, estranheza e solidão/Uma parte de mim pesa, pondera/Outra parte delira/Uma parte de mim almoça e janta/Outra parte se espanta/ Uma parte de mim é permanente/Outra parte se sabe de repente/ Uma parte de mim é só vertigem/Outra parte linguagem/Traduzir uma parte na outra parte/Que é uma questão de vida e morte/Será arte ? Posso dizer, plagiando, que uma parte de mim é Sevilha e Andaluzia; outra, Nordeste.