Fonte: Coluna de Nelson Motta no Globo
Data: 1982
Repórter/Jornalista: Nelson Motta
Título: Noches sevillanas: de música e bola

Modorra em Sevilha, zorra em Zorilla: lá, um "sheik"entrou em campo e - no papo, com juiz soviético - anulou um gol da França, em lance realmente das arábias. Mesmo assim não deu para os beduínos de Chirol e Parreira: a "colônia"de Sevilha aguarda reabilitação frente à Inglaterra colonial e já classificada, em tédio, pois. Adelante Kuwait, que o profeta o ilumine. Pela Plaza de España toda iluminada, fomos eu e Fagner encontrar com o pessoal da Rádio Câmbio 16. Fomos ser entrevistados em um programa noturno, um "Noches Sevillanas" radiofônico, transmitido ao vivo de um bar na dita plaza. Perguntam muito sobre liberdade de expressão, política, eleições, produção cultural, imensidão do país, essas coisas. Pedem a Fagner, na bucha, uma lista dos cinco maiores músicos brasileiros de todos os tempos e ele manda. Em linha: - Villa Lobos, Nepomuceno (Alberto), Carlos Gomes, Hermeto e João Gilberto - dardeja Raimundo-locutor, em tempo de Osmar Santos. Hesita um segundo e emenda que Tom Jobim tem que estar nessa linha. Vê a fisionomia apreensiva do Sérgio Cabral e dardeja uma escalação alternativa. - Villa Lobos, Nepomuceno, Carlos Gomes, Hermeto e Pixinguinha. O Cabral, pixinguista, pixingólogo e pixingômano militante, delira no bar da Plaza de España iluminada. Fagner sorri. Ao fundo, a banda do "Custódio de Mello"ataca exatamente a protofonia do "Guarani"e foi impossível não lembrarmos de Glauber, de seu hino pessoal: um gol do Centro-avante Carlos Gomes. E o Fagner e eu lá nos microfones, falando de flamenco para os andaluzes. Sentimos falta também de Dom Pepe, com todos os seus discos: o popular disc-jockey anda acompanhado de uma mala - quadrada e metálica - com a fina flor do melhor e mais alegre som brasileiro: é seu passaporte internacional para os lugares onde há música e festa, portanto música brasileira. Um dos apresentadores - Jesus - me pede para analisar a personalidade artística de Fagner. É meio constrangedor, ali na presença do santo, falar de seus milagres mas o microfone está aberto e o falador que vos locuta foi adelante: - Fagner é um jovem centroavante impetuoso, goleador, que bate bem com as duas de cantor, mas ainda precisa mais impulsão na cabeça de autor. Acusado por alguns de atropelar os de sua própria equipe, de ser um "fominha", por outros é saudado como adepto do jogo solidário e por ajudar os novos valores. Fagner começou nas equipes inferiores do Fortaleza, de uma pequena cidade do Norte brasileiro,e depois de uma passagem por Brasília, onde atuou no Universidade local, marcou quatro gols em uma única final de festival e foi então para o então poderoso Philips - o time de todas as estrelas da época, treinado pelo legendário sírio André Midani - no Rio de Janeiro. Tinha muito cobra na equipe: Chico, Caetano, Gil, Elis e Jorge Ben - só para citar a linha atacante. E ainda Bethânia no gol, Gal na cabeça de área e até mesmo Geraldo Vandré na lateral esquerda e Simonal na direita, na época em grande forma. O impetuoso avante cearense transferiu-se então para o Continental, um time de segunda divisão e só alguns anos depois começou a atrair público para suas atuações. Foi aí que se transferiu para o time de seus sonhos, o poderosíssimo CBS - o Cosmos carioca, onde joga e é estrela máxima o grande ídolo de Fagner, o camisa 10 Roberto Carlos. Lá, jogando ao lado do "Rei", vem crescendo de jogo a jogo. Mas o goleador da equipe é sempre o camisa 10: com a 9, Fagner está sempre presente na área e tem fuzilado inapelavelmente da maneira que ela vem. Não nega ter fome de gols, mas refuta parte da crítica que o acusa de abusar das firulas para impressionar a galera. É um goleador nato, combativo - marca pressão a defesa adversária - que está chegando à maturidade agora, um atacante de explosão capaz de dar grandes alegrias à torcida. Até aqui em Sevilha se comenta que seu passe está sendo disputado por sólida equipe inglesa da primeira divisão, embora ele diga que prefere continuar em sua atual equipe. Para arrematar cito que, segundo o crítico brasileiro Nicanor, o "callo"de Fagner é o baiano Caetano - o maior meio de campo brasileiro de todos os tempos.