Fonte: Carderno B do Jornal do Brasil
Data: 18/09/82
Repórter/Jornalista: Tárik de Souza
Título: Fagner, o super ídolo no barato da fama

Antes mesmo de prensado o primeiro disco, uma cifra fabulosa, 400 mil pedidos de lojistas do Brasil inteiro, empilha-se no departamento comercial da gravadora CBS. O equivalente antecipado a quatro discos de ouro na mineralogia da indústria musical adquiria um produto caríssimo e imprevisível. Por 200 mil dólares, cerca de Cr$ 20 milhões, entre abril e maio, no mais famoso estúdio de Nova Iorque, o Hit Factory, de 48 canais, onde John Lennon registrou suas últimas gravações, nascia este miraculoso produto de mercado certo. A fórmula, se pode ser chamada assim, não é nada simples: tem por base o tecladismo de Lincoln Olivetti e seu inseparável contraponto de metais; finos artistas como os americanos David Sanborn e Michael Brecker; poemas musicados da passionária portuguesa Florbela Espanca e do metafísico Fernando Pessoa, a guitarra flamenca de Paco de Lucia e a cantoria de cego Vapor do Luna, do Bigodeiro, da cidade de Barbalha, no sertão do Cariri. Gil Evans, o maior arranjador do mundo, acostumado à parceria nas genialidades de Miles Davies, apareceu nas fotos e no estúdio "para dar uma força". George Martin, o produtor dos Beatles, foi recusado: "Queria 5 mil dólares por faixa para fazer os arranjos, eu achei caro (risos), mas o que pegou mesmo foi que ele só se interessava em fazer o disco todo. E aí o trabalho deixava de ser meu." Quem está na minha frente dizendo essas coisas na sala de seu apartamento confortável no Leblon à beira do canal é o cantor, produtor, principal arranjador e compositor do disco de tantas vendas antecipadas, Raimundo Fagner. Nele um público em escala crescente confia de olhos (ou ouvidos) fechados; já compra pelo nome, numa época temerária em que alguns super-ídolos como Maria Bethânia e Rita Lee desabaram para metade de suas próprias vendas anteriores. O cearense Fagner não apenas tem consciência de sua escalada (dos 60 mil exemplares de Raimundo Fagner, de 76, às 200 mil de Quem Viver Chorará, de 78, e às anteriores 350 mil do hispano-brasileiro Traduzir-se) como a transforma numa bandeira de luta. "Meu próximo contrato", brada com os braços abertos, de camiseta e calção, "vai ser tão elevado que eu não quero nem divulgar as cifras para não ser perseguido". Fagner, ainda o mesmo sertanejo magro de voz quebrada ("tenho uma faringite crônica, se beber gelado, desabo no primeiro grito") acha que esse disco, bem trabalhado, "pode ultrapassar Roberto Carlos". E ele quer um contrato à altura de quem não aceita reversão de expectativas. "O ídolo já nasce escrito na cara, velho. Só se o sujeito for desleixado, não trabalhar direito, é que cai." O contrato de Fagner vence no atual best seller e ele faz contas de renovação lembrando-se dos exemplos de Stevie Wonder (13 milhões por sete anos em 1975, com a Motown) e do próprio Roberto Carlos com a CBS Internacional (6 milhões por cinco anos, em 1979). "Hoje a situação mudou, o Earth, Wind & Fire assinou por oito anos e só recebeu 2 milhões de dólares". Para Fagner não há terceira alternativa: "Ou calça de veludo ou fundo de fora"- arremata. E adianta que se não assinar a renovação (por quatro anos, com a obrigação de gravar três discos) parte para a gravadora própria, talvez um grande selo brasileiro, unindo todos os artistas nacionais. E que ninguém duvide de sua capacidade de aglutinação. Outra prova dessa habilidade sairá até outubro, nas comemorações do centenário de Pablo Picasso. O irresistivel Fagner participou do disco de homenagem ao pintor, terçando violões marca Ovation (foi a primeira vez que que ele tocou num elétrico, para pavor dos irmãos dele que são tradicionalistas) com ninguém menos que o espanhol Paco de Lucia, o maior violão popular do mundo no momento. Fagner sorri vitorioso: "Nas bases eu me garanto, claro que eu não ia me meter a solar na frente do Paco." Ainda assim, há uma faixa do disco em que Fagner sola e se acompanha. O poeta e também pintor Rafael Alberti, ídolo na Espanha, manda-lhe bilhetes e desenhos no estilo de Picasso, com dedicatórias, elogiando a qualidade do disco que gravaram juntos. Mercedes Sosa divide com Fagner a faixa Málaga, de incrível pungência. Um piano elétrico os acompanha ? É Fagner. "Esse disco realizado me vale por 1 milhão de discos vendidos", ele exclama, explicando seus pesos e medidas entre cultura e quantidade. A homenagem a Picasso será o número 1 da etiqueta Orós, que também parece muito disputada pela Odeon, mas Fagner não quer adiantar os lances. "Só sei que vou cobrar tudo que me devem com juros e correção," comenta enquanto repassa a fita num gravador embutido no pequeno mas confortável escritório do apartamento. As alternativas parecem abismais: ou Fagner se torna o rei da música no Brasil, destronando o amigo e ídolo Roberto Carlos, ou abre em Fortaleza um pequeno estúdio de gravação"que já daria para se manter só gravando jingles para o comércio local e futuramente poderia aglutinar em disco os cantadores de toda aquela região." O mesmo cearense que eu conheci em 72, morando de favor numa ladeira íngreme de Copacabana, mas às vésperas do primeiro LP com um compacto promocional onde o elogiavam de Nara Leão e Afonsinho a Chico Buarque e Ronaldo Bôscoli, Raimundo Fagner, 32 anos, não se perturba ao ouvir repetidas as recentes insinuações de megalomania. Deu uma entrevista à revista Playboy poucos meses antes da Copa, onde dizia que com algum treino pegava a Seleção Brasileira como jogador; na área artística sua plataforma era barrar ninguém menos do que os Beatles. "Olhe", diz com o mesmo sotaque, mexendo as mãos com duas pulseiras de ouro e uma de couro, "aquela foi uma entrevista onde eu quis dizer tudo que me vinha à cabeça, mas não quer dizer que eu só tenha falado mentiras." Vai comparando: a Seleção, que acompanhou de perto na Espanha (reuniu 5 mil pessoas numa praça em Sevilha para um show de música que dividiu com os jogadores Sócrates, Zico e Júnior e mais os espanhóis Camaron de La Isla e Lole Manoel) não teria ficado tão distante. "Tinha muito pé-frio por lá, principalmente na cartolagem, o time não tinha retaguarda para apoiar as vitórias, faltava vibração, alguém do povo infiltrado e acho que garra eu tinha pra dar lá em campo." E a questão dos Beatles, segundo ele, seria mais uma questão de tempo. "Se eu trabalhasse outros cinco anos como trabalhei esses primeiros dez, poderia me tornar um nome internacional. Mas agora tenho feito força para botar os pés no chão. Por mais que eu queira sempre fico um pouco acima, mas me recuso a entrar no túnel do tempo, ser um desses ídolos que acabam se suicidando como o Elvis Presley." Fagner tem suas defesas. Enquanto conversa recebe todos os telefonemas do dia,de cinco em cinco minutos, mas dedica especial atenção aos dos conterrâneos. Combina com uma amiga uma fuga e festas "das boas"no interior do Rio Grande do Norte, isso porque Fortaleza "não dá mais"e Orós (sua cidade natal), "essa nem se fale". Acha que está chegando "mais cedo do que a maioria"numa fase de precisar de mais contato com a natureza. Viveu este tempo todo dedicado à carreira. "Mas essa é uma das razões do sucesso, a dedicação total, as pessoas sabem que eu estou inteiro ali." Camisetas, posters e um filme promocional feito especialmente para 50 emissoras de TV fazem parte da estratégia de marketing, para manter intensa a procura do novo LP do Fagner. Mas certamente o grande chamariz do disco será o Especial que a Globo já começou a gravar com ele, Sorriso Novo, para ir ao ar dia 15 de outubro, dois dias após a passagem dos 33 anos cabalísticos do artista. Fagner aparece com a camisa do time que organizou em Fortaleza, o Barcelona, num show do Maracanãzinho. No Teatro José de Alencar, na Capital cearense, que chegou a ser proibido para a música popular, ele canta dois números. Na casa onde nasceu José de Alencar, fala trechos do Ubirajara e nas praias da cidade associa-se aos cantadores Patativa do Assaré (de quem produziu dois discos) e Bigodeiro, um cantador cego e paraplégico que descobriu em Barbalho, cujo nome é José Rodrigues dos Santos. A impressão de regionalismo que pode dar o Especial, no entanto, não corresponde ao clima do disco, onde essa facção é minoritária no repertório. Além de Vapor do Luna, em que Fagner entra como parceiro "por ter ajeitado a cantoria", um tema belo e incisivo ("Vapor lá é engenho"), há o comovente e irônico - a um só tempo - Orós II, de João do Vale. "Essa música eu conheci no dia em que esbarrei no João num hotel de Natal e ele me falou que tinha uma música que era perfeita pra mim. Isso foi lá por 77, mas só agora eu gravei." Por causa dela, ficou na gaveta Castigo da Seca, feita especialmente para ele pela dupla Venâncio e Corumba, recentemente desfeita pela morte de Venâncio. Fagner considera-se em débito com seu lado nordestino e promete reunir essas músicas, que se encaixam como luva em sua voz, num LP à parte. A maior parte do LP constitui-se de baladas, com o fatalismo de Florbela Espanca, uma poetisa portuguesa morta em 1930 (Fumo, Tortura), ou a metafísica preocupada de Fernando Pessoa (Qualquer Música). "Por mim, eu ainda estaria musicando Cecília Meirelles", lamenta Fagner. "Tenho até A Canção e Taverna já musicadas, mas houve aquele problema com as herdeiras e fui obrigado a sair um pouco de cena". Essa aliás é uma atitude pouco conhecida em Fagner: ele simplesmente sai de campo para evitar certo tipo de combate. Recentemente, magoou-se com uma entrevista da cantora Telma onde ela disse que ele, como produtor, tinha pedido a ela que gravasse uma de suas composições e, com isso, afastou-se um bom tempo das produções. Estourado na América Latina com a faixa Años do disco anterior ao lado de Mercedes Sosa, Fagner também tem um petardo reservado para o próximo carnaval. Gravou em dupla com Martinho da Vila um frevo (Batuquê de Praia) e um samba (Cantos do Rio), ambos de alto poder contagiante, do conterrâneo Petrúcio Maia. O segundo é apresentado por Fagner, que o dedica à comunidade do samba, como Gilberto Gil fizera com Aquele Abraço. Os homenageados destinatários , desta vez, são o próprio Martinho, D. Ivone Lara, Clara Nunes, João Nogueira, Alcione e Paulinho da Viola. "Vai ser um arraso", garante. Autor do merengue Sambalatina (essa faixa é pras discotecas), Fagner diz que em sua posição não pode ter a menor ilusão com as coisas. Acha absurda a campanha promocional de Julio Iglesias ( "Eu não invadiria a Espanha dizendo que vou vender tanto como ele está fazendo no Brasil, inclusive desrespeitando o Roberto Carlos que também é da gravadora")e considera a fama o mais poderoso tóxico que existe. Um dos mais rendosos contratos de royalties da indústria do disco (recebe 14% contra 6% a 10% da maioria), Fagner diz que apesar de tudo a fama ainda não pode comparar-se "ao maior de todos os baratos que é ser querido. É quando você sente que a sua megalomania tem apoio, ressonância social. As pessoas torcem por você, te acompanham e impulsionam. Isso vale tudo."