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Fonte: Revista Romântica
Data: 1982
Repórter/Jornalista: Rita Cristina Cyntrão
Título: Sou o grande ídolo nacional
Briguento, maldito, difícil foram apenas algumas das qualidades que atribuíra, a Fagner no início de sua carreira. Na verdade, a maneira de cantar gritando, o visual pouco comportado e a voz angustiada de lamento sertanejo não inspira a confiança dos produtores de discos; mesmo assim, não fez uma concessão sequer. Estava decidido a aparecer exatamente do jeito que era e queria: "Não fiquei maldito por causa do meu trabalho e sim pela minha atitude quando briguei com a gravadora defendendo meu direito de não fazer um trabalho imediatista e sim a longo prazo, como foi feito, como foi bom para mim." Hoje, 12 anos depois, Fagner está de bem com a sua gravadora e afirma: "Confio muito na minha companhia, nas pessoas que me divulgam e assessoram. Se eu fosse um artista independente, seria na verdade mais dependente do que se possa imaginar." Fagner conseguiu, pouco a pouco, criar um estilo único, difícil de ser seguido ou imitado, e adquiriu um lugar de destaque na MPB. Talvez por causa disso ele agora seja ainda mais criticado. - Antes gostavam de mim pela minha maneira decidida de furar a barreira imposta à música brasileira. Depois que me destaquei e fui reconhecido, passaram a me criticar, a me cobrar. Mesmo assim, não guardo rancor de ninguém. Tenho consciência de que antes não havia possibilidade de ser conhecido como agora, mas era reconhecido dentro dos limites. Com seu lugar conquistado, Fagner, rei das idéias novas e difíceis, resolveu atacar um antigo projeto, ano passado: gravar na Espanha, reunindo as celebridades da música de lá e fazer daí uma mistura de ritmos europeus e brasileiros. Havia, aliás, há muito tempo, uma ligação sua com aquele país. Há alguns anos, o violonista espanhol Pepe La Matrona colocou em sua cabeça um boné. Desde esse dia, Fagner não largou a mania pelos bonés, já tão conhecidos do público. Mas deixando de lado os bonés, Fagner gravou seu desejado disco Traduzir-se, e trouxe para o público que, por sinal, gostou muito. A crítica, porém, enumerou mil defeitos: - Essa era uma idéia que eu tinha há muito tempo na cabeça e no sangue, árabe e andaluz por parte de meu pai. Foi um trabalho que me fez muito feliz, gostei e o público também. Como meu compromisso maior é com o público, pouco me incomodam as opiniões dos críticos. A crítica brasileira, aliás, é extremamente pobre, não sabe analisar e não tem bases. Está ligada a uma idéia tradicional de música brasileira e não a vêem como coisa universal. E sem ligar para o que dirão os críticos, lanca seu LP, Fagner que, diz ele, "é uma mudança radical de estilo mas não uma mudança radical de Raimundo Fagner." Qualquer música, o carro-chefe do disco, já é bem conhecida nas paradas das rádios. Não fosse pela voz, mal daria para reconhecer o cantor do espanholado Traduzir-se. Mas o inesperado é uma das marcas de Fagner; a outra é a preocupação pelo trabalho bem feito. Fagner se diz casado com a música e afirma que o trabalho é sua maior companhia. Passa horas gravando e regravando sem reclamar, contanto que saia bem feito. No especial da Globo, era o mais requisitado mas também o mais bem humorado. No final, ainda fez questão de procurar nossa equipe de reportagem para dar o seu recado. - Milhares de pessoas vão ligar a tevê para me ver. É justo que vejam o que de melhor tenho a oferecer. É bastante cansativo, mas bastante bonito, pois gosto muito do trabalho e das pessoas que participam comigo. Ele, porém, diz ainda preferir os shows ao vivo. - Estou mais a fim de me tornar claro e entender as pessoas. A coisa de que mais tenho vontade é de um contato maior com meu público. Quero ver a cara da pessoa que vai me ver. Fagner é da opinião de que o sucesso pode fazer com que o artista perca a espontaneidade de se relacionar com os outros. Apesar de se defender disso do jeito que pode, se confessa bastante desconfiado. - Adoro poder conhecer as pessoas, saber quem são elas, o que podemos trocar. Posso ser bom ou mau, depende da situação em que me encontre. Percebo logo quando se aproximam de mim pela minha fama: é só notar o jeito de chegar, falar, olhar. Esses parasitas ou se modificam ou terminam por se afastar, quando vêem o comportamento daqueles que realmente me amam e me respeitam. Não confio e nem faço questão de confiar em ninguém. Só há uma coisa na vida na qual confio: meu trabalho. Mesmo assim, muita gente acha que o sucesso já balançou demais a cabeça do rebelde Raimundo Fagner, principalmente quando ele começou a se comparar a Roberto Carlos. Será que não deveria ser um pouquinho mais humilde ? - Humildade é uma coisa muito relativa. Há muita gente por aí que se faz de humilde para apresentar uma imagem bonita. Eu não vou fazer isso porque sei muito bem quem sou: hoje em dia, sou o grande ídolo nacional.