Fonte: Revista Playboy no. 81
Data: Abril de 1982
Repórter/Jornalista: Ivo Cardozo
Título: Modéstia à parte, ele é o Raimundo Fagner

Ceará, Rio, Brasil. Tudo isso é muito pouco para quem quer ser ainda mais famoso que os Beatles...

O cearense Raimundo Fagner Cândido Lopes, depois de ter conquistado, aos 31 anos, o Rio (onde acampou com seus conterrâneos, ocupando espaços musicais, até mesmo na multinacional CBS) prepara-se agora para fazer a América. Por estes dias ele estará iniciando uma turnê pelas principais capitais da América Latina, para divulgar seu último LP, Traduzir-se. Depois emenda até os Estados Unidos, onde gravará, com todos os luxos de produção a que tem direito, o nono LP de sua carreira. Depois atravessa o Atlântico e vai até a Europa onde tem shows programados em alguns países. Ao final deste giro, que deverá ir até setembro, três coisas acontecerão, segundo Raimundo: 1) ele terá ocupado o seu lugar como o novo Beatles, transformando-se no maior vendedor de discos do mundo, batendo o espanhol Julio Iglesias; 2) com a descomunal importância em dólares que ganhará de sua gravadora, a CBS, ele pagará a dívida externa do país, ajudando o governo a acabar definitivamente com a inflação; 3) multimilionário, sem preocupações com dinheiro para o resto da vida, ele começará uma série de shows em que cantará de graça em praça pública para multidões de 150 a 200 mil pessoas, em cidades como Ribeirão Preto e Jaú, onde nasceram seus amigos jogadores de futebol Sócrates e Afonsinho, e nas cidades de outros amigos também (basta chamar que ele estará lá. A prefeitura entra só com as despesas de organização). Depois, quando cansar, Raimundo voltará para o Ceará, onde passará o resto de sua vida jogando futebol no campo particular que mandou construir em Fortaleza. Vez por outra para variar, interromperá as peladas para gravar um disco ou outro no estúdio que será construído ao lado do campo de futebol. Raimundo Fagner faz estas previsões a sério, falando placidamente. Delírio megalomaníaco ? Em parte sim, naturalmente. Mas, coerente com o nordestino desajeitado, curvado nos seus 1,83 metros de altura, de sotaque carregado, que há pouco mais de dez anos chegou ao Rio com os olhos brilhando de vontades, querendo ser apenas o máximo. E que fez de tudo para conseguir, até anunciar imodestamente e sem pudores que era o maior. Dentro e fora do palco radicalizou suas emoções, cantou com toda a força de sua verdade para emocionar. Falou sem censura para chocar, brigou, respondeu, provocou. "Sou o maior cantor do Brasil. Em dez anos me transformei na única unanimidade nacional", diz ele com sua voz fanhosa, deitado num sofá de couro de seu amplo apartamento numa das ruas mais caras do exclusivo bairro carioca do Leblon. "Agora vou ser o maior do mundo, já estou nas cabeceiras de Liverpool." O fato de não ser exatamente um exemplo de modéstia, não o incomoda. Pelo contrário, "Graças a Deus não sou modesto. Modéstia e ditadura no Brasil são a mesma coisa. Ditadura gosta do cara que fica calado. Eu podia ficar calado, mas falo porque quero fazer do sistema um circo. Sei que sou o maior do Brasil. Poderia ficar calado, e no entanto, não me poupo. É a minha resposta ao sub-desenvolvimento brasileiro." Raimundo Fagner sabe também que este indecoroso discurso autocongratulatório, só aumenta o desgosto que mostram os seus adversários, entre os quais Caetano Veloso que, tempos atrás, no auge de uma troca pública de insultos, o classificou de pessoa "sem moral e sem caráter". Ele acha isso natural: "Estou aqui firme e forte. E por cima, absolutamente por cima. Tá todo mundo morrendo de inveja porque falei tudo o que ia acontecer comigo, entende ? Não estou preocupado que os poetas concretistas, os Campos e os Caetanos, me apóiem. Preciso do apoio de quem compra meus disco. Preciso do apoio do povo brasileiro." Se fosse possível imaginar o "povo brasileiro"como algo concreto, é difícil crer que ele se impressionasse com o menino desafinado que aos seis anos ganhou o primeiro lugar num concurso de rádio em Fortaleza pela passagem do Dia das Mães. A proeza era a consequência natural de um processo de, digamos, encarnação de Fagner na personalidade de Joselito, o menino dos filmes espanhóis da década de 50, especializado em travessuras, ao som de sua bela voz infantil. A mãe, dona Francisca, contudo, se deixava impressionar pela eclosão do talento precoce. O pai, o comerciante libanês José Fares Lopes, hoje um bem-sucedido construtor civil, se impressionava muito menos, pois não queria um filho "artista"(apesar de, ironicamente, ter trocado o nome do filho para Fagner visando um abrasileiramento, que resultou também num "nome de artista"). Prêmio nas mãos, fagner começou a fugir de casa para cantar nas rádios, entrar em programas de televisão em Fortaleza e animar festinhas em casas de família. Sua primeira tentativa profissional foi no IV Festival de Música do Ceará, em 1968, com uma composição que tinha o significativo título de "Nada Sou", de parceria com Marcos Francisco, autor da letra (Fagner tem pouquíssimas letras gravadas, quase sempre faz só a melodia). Sua música não foi propriamente bem acolhida, apesar de sair vencedora. "A culpa é do júri, o rapaz não tem nenhuma", sentenciou um crítico nativo. "A própria música já é uma confissão de sua insignificância."Palavras inúteis, pois é impossível imaginar Fagner impressionado com críticas. "Sou um predestinado", explica ele. "Sempre quando aparece um obstáculo, vem uma coisa muito forte e me dá um cutucão." Não é uma explicação irrepreensível, mas, de resto, Raimundo não se destaca pelas formulações articuladas. Certa vez, ele tentou defiir o Nordeste desta forma: "Essa história de Nordeste, tá é mal contada. Quando as pessoas falam "Nordeste", elas estão querendo dizer é aquele negócio piegas, tipo Quinteto Violado, tá entendendo ? Eu quero colocar que o Nordeste não está resumido a esses papos de triangulinho acolá, uma musiquinha de sotaques aqui. O Nordeste não é isso, não. O Nordeste é uma barra muito pesada." Disse mais, mas isso foi o que restou de articulado. Dos festivais cearenses, surgiu um grupo chamado no Rio e em São Paulo de "Pessoal do Ceará". Previsivelmente, reuniam-se em bares onde solucionavam quase todos os problemas do mundo,e de certa forma desconfiavam do jovem Raimundo, um secundarista mais ligado em Roberto Carlos e nos Beatles do que nas misérias provocadas pelo AI-5, a tragédia nacional da época. Mas não existem rejeitadores sem rejeitados, e Fagner jamais se encaixaria no papel de rejeitado, terminando aceito pelo grupo. Os "culturais"(assim ele se refere aos intelectuais) acusavam-no de ser apenas intuição, nota zero em base sistemática. Coisa que ele nega até hoje: "Os culturais tem a cabeça cheia de informações. Mas tem que ser mais sucintos. Meu espaço é outro. Eu não estaria onde estou se fosse só intuitivo, entende ? O cara pra chegar onde cheguei tem que ser inteligente, talentoso e ingênuo." Das noitadas cearenses saíram Belchior, Ednardo, o letrista Fausto Nilo, Petrucio Maia, Ricardo Bezerra, "um grupo que vive negando suas características grupais mas que permanece ligado pelo vínculo umbilical, indissolúvel, de sua origem e postura diante do mundo e da música", conforme escreveu em 1977 a crítica Ana Maria Bahiana. O primeiro a descer para o sul foi Belchior. Fagner, reprovado no vestibular em Fortaleza, foi para Brasília fazer o curso de arquitetura na universidade local. Mas continuava se dedicando à música durante todo o tempo- e decidido a tentar a sorte no Rio. Quem lhe deu o empurrão decisivo foi, estranhamente, o então Ministro das Comunicações, Higino Corsetti. Entre nostálgico e divertido, Fagner recorda pela primeira vez publicamente o episódio: "Foi em 71. Eu fui fazer um show para os ministros lá mesmo em Brasília, no Clube das Nações. No meio do show, eles estavam conversando. Eu parei de cantar e mandei eles calarem a boca. Eles calaram e eu continuei. Depois do show, chegou uma pessoa para mim,e, ao saber que eu queria ir para o Rio, me disse: "Vá, vá, que você tem futuro". Depois eu fiquei sabendo que era o Ministro Higino Corsetti. Nunca mais vi ele, mas nunca me esqueci disso." O toque de Corsetti funcionou. O Rio seria a próxima etapa. A essa altura Fagner já havia ganho o Festival de Música de Brasília, com "Mucuripe" em parceria com Belchior (que gerou um de seus numerosíssimos casos. Ele simplesmente pegou a letra de Belchior e ignorou que ela já estava musicada, fazendo uma nova). Os primeiros dias de Rio foram de fome, depois que o dinheiro curto trazido de Brasília acabou. "Jantava" nos supermercados, um biscoito aqui, uma fruta ali, o "santo trambique", como diria anos mais tarde. Até que conheceu, em 1972, o casal Elis Regina-Ronaldo Bôscoli, em cuja casa passou a morar de favor. Elis gravou "Mucuripe", que iria abrir todas as portas para Fagner. Apadrinhado imediatamente pelos grandes nomes da época, foi contratado pela Philips, capturando mais um de seus objetos de desejo ("Eu sabia que tinha que gravar na Philips, só podia ser lá"). Na Philips, gravou o seu primeiro LP, Manera Fru Fru Manera, que vendeu cinco mil discos. Ele acha que foi vítima, logo depois, de um grande boicote. "Na Philips, quem mandava eram os baianos, e os baianos não me quiseram lá", diz. "Os baianos sempre tiveram muito vatapá, se acham os maiores. Os baianos sempre se promoveram, os cearenses não. A máfia baiana só não existe porque não vingou. É um mito morto." A briga com Caetano Veloso, que virou lenda nos bastidores da música popular, começou no dia em que Caetano chamou Fagner a sua casa, com outros convidados, e não quis cantar, dizendo estar cansado. Fagner então pegou o violão, cantou e foi aplaudido pelos convidados do dono da casa. Para piorar as coisas, tempos depois, Caetano virou as costas a Fagner, quando este conversava com Nara Leão, colocando-se entre os dois. Fagner jamais voltou a por os pés na casa de Caetano, que publicamente tachou o cearense de mau compositor e mau caráter. Fagner detecta na briga algo mais do que a explosão de duas estrelas temperamentais ao entrarem em contato. Acha que, na verdade, o que está em causa são modos diferentes de encarar a música. "A tropicália é a ditadura cultural. Morreu há muitos anos. Era um som americano, cheio de reggae. Não foi fácil sobreviver à barreira cultural que eles armaram, que é pior que a censura." Onde se ouve eles, se poderia ouvir Caetano ? "Caetano é parte, mas não é o único", replica Fagner. "Ele não é malandro como pensa que é: é ingênuo chegando às raias do otário. Só é esperto na música dele." Curiosamente, Fagner diz que a culpa pela briga com Caetano é da imprensa. Eu não seria nunca inimigo dele. Posso até dar um tapa nele, entende, mas como daria um tapa num irmão ou numa irmã. Inimigo é quem pensa contra você. Temos incompreensões e conflitos, mas não somos inimigos." Com sua voz de "taquara rachada"( a expressão é do crítico Maurício Kubrusly) e sua fala caipira misturada com gírias cariocas, Raimundo Fagner foi à luta. Depois de deixar a Philips, fez parceria com Chico Buarque na trilha sonora do filme Joana, a Francesa, e aceitou um convite para se apresentar em Paris como o músico francês Pierre Barroux e o percussionista Naná Vasconcelos, sob o patrocínio do costureiro Pierre Cardin, que produzira Joana. Enquanto isso, a fama de brigão se espalhara entre os executivos das gravadoras, e quando voltou da França teve dificuldade para arranjar um contrato. "As companhias de discos estão interessadas em babacas", diz ele, "porque assim tanto elas podem fazer o cara quanto destruir. Mas não é curioso que o pessoal da direção ama quando encontra um sujeito que os faz refletir. Afinal de conta, eles são gente também." Depois de alguma batalha, ele finalmente conseguiu entrar para uma gravadora modesta, a Continental, onde gravou seu segundo LP, Ave Noturna, recebido muito bem pela crítica especializada, mas não tanto pelo público comprador. A briga com a empresa veio logo em seguida. Até hoje ele não acredita que o disco tenha vendido apenas o que a Continental divulgou. "Não acredito nos números das gravadoras, nem da minha nem das outras", afirma. "Como não acredito na crise do disco no Brasil. As gravadoras precisam numerar os discos primeiro,e vamos conversar depois. Eu, por exemplo, vendo de 300 a 400 mil discos de cada vez, mas os números da gravadora não mostram isso." Rompido com a Continental, Fagner foi para a CBS em76, e nesta gravadora, em que permanece até hoje, já fez seis LPs que lhe valeram quatro discos de ouro (acima de 100 mil cópias vendidas) e um disco de platina-este, graças a Traduzir-se, que ultrapassou a marca dos 250 mil. Entre a CBS e o cantor estabeleceu-se uma surpreendente sintonia. Fagner e Tomaz Muñoz , o espanhol de 47 anos que preside a filial da CBS desde 1980, tratam-se fraternalmente, beijam-se no rosto quando se encontram e trocam elogios rasgados. Para Fagner, Muñoz "é um dos homens que mais entendem do mercado fonográfico do mundo." Para Muñoz, Fagner "é um grande talento, dono de uma intuição fantástica, extraordinária." Quando ouviu o cantor pela primeira vez em 1976, de passagem pelo Brasil em meio a uma viagem que o levaria a todas as sucursais latino-americanas da empresa, Muñoz sentiu que havia um espaço grande para ele. Levou-o, então, para a Espanha - onde ainda presidia a empresa - e lançou o primeiro LP de Fagner, em espanhol. E desde que veio para o Brasil, Muñoz continuou dando força ao seu trabalho, sobretudo em praças do exterior. "Conquistar outros mercados", diz Muñoz, "é um caminho longo e tortuoso". O presidente da CBS relembra que Julio Iglesias, o cantor espanhol contratado da CBS, levou 15 anos para tornar-se o maior vendedor de discos do mundo. "O sucesso de um compacto no mundo não é coisa difícil,"ensina Muñoz, "mas não passa de chuva de verão." Assim, a fórmula do sucesso implicaria em paciência, apuro técnico e visão a longo prazo. A visão a longo prazo exige, segundo Muñoz, que se considere primeiro os lugares onde o cantor tenha afinidades culturais. "Depois é que se pode pensar nas outras praças, mais distantes, com diferenças mais acentuadas." Foi por isso que Muñoz levou Fagner à Espanha para lançar Corazón Alado e, em meados do ano passado, o LP Traduzir-se. Este disco foi lançado- além de Brasil e Espanha-na América Latina e para o público latino dos Estados Unidos. Existem planos de lançá-lo agora em países europeus." "O gigante da CBS sou eu", garante Fagner. "Nem o Roberto Carlos, com todo o respeito que tenho por ele, é gigante na companhia. O que eu consegui fazer lá, sem recursos, ninguém mais fará. Hoje todos copiam a CBS. Estou desinteressado porque quero. Me interessa só jogar a semente. Não estou preocupado em ser o presidente da companhia." Na CBS, Fagner reativou o selo EPIC, que chegou a ter em seu "cast"mais de 30 artistas, muitos deles considerados invendáveis pela gravadora. Eram autores de discos conhecidos no jargão interno do negócio como LS (lançamentos secretos). Mas foi seguindo esse caminho que Fagner levou para os estúdios de gravação profissionais como Amelinha, Zé Ramalho e Robertinho do Recife - o que lhe garante um prestígio sólido entre muitos de seus colegas. "Fagner é uma pessoa de determinação, de alto astral", diz Amelinha. "Muito humano, preocupa-se demais com seus semelhantes; atencioso com os fãs e fiel às suas amizades". Na realidade Fagner não se mostra tão desinteressado por seus projetos como apregoa. Tanto que nos último tempos foi o produtor dos discos de Nara Leão (para a Polygram), Cirino e Telma Soares ( para a RCA) e João do Valle (para a própria CBS). E já reconquistou um pouco de seu antigo espaço ao convencer Muñoz a gravar dois LPs com músicos nordestinos ainda desconhecidos. "Não terá retorno, mas vamos bancar", diz Muñoz resignado. Além de toda essa atividade, Fagner frequenta regularmente a CBS, mesmo que não tenha qualquer compromisso de gravação. Nestas visitas ele amplia seua relações com todos os funcionários da empresa. Isso não quer dizer que ele já se considere "móveis e utensílios"de lá. Tanto que, na hora da renovação de contrato, irá pedir alto. Os Cr$ 70 milhões e mais um carro Mercedes dados à cantora Simone como luvas recentemente, por exemplo, não dão nem para a saída. "Isso aí", ele diz, "eles tem que me pagar só para eu sair do Ceará e vir aqui bater papo com eles. O resto vamos conversar depois." Acha perfeitamente justa a sua exigência: "Sou um produto viável para o mundo. Logo, mereço um grande contrato." O novo contrato, o apartamento do Leblon, os terrenos no Rio e em Fortaleza e o dinheiro que está amealhando, tudo isso vai jogando cada vez mais para longe a imagem do jovem rebelde de boina de Che Guevara, morador até recentemente no modesto conjunto habitacional da Equitativa, no bairro carioca de Santa Teresa. Mas ele afirma não estar incomodado com a posse dos bens do mundo. "Não mudei. Apenas ampliei a minha visão. As coisas que vêm para mim são minhas, mas não boto pra quebrar. Podia ter cinco empregadas, mas não tenho, despachei até a que tinha." Qaundo lhe perguntam se está rico, faz-se de mal entendedor. "Sim,estou milionário", responde, "estou me encontrando, gostando de tudo. Está tudo aberto, uma riqueza." Depois, revela que, enquanto não chega a hora dos shows de graça para as multidões, segue cobrando entre 4 e 5 milhões por apresentação nos grandes shows. De contrato novo na CBS, musicalmente, para onde irá Fagner ? Até onde quer e pode chegar ? "Fagner está explorando mais a poesia literária, o seu lado espanhol", opina seu parceiro mais próximo, o poeta e arquiteto cearense Fausto Nilo, que o acompanhou na Espanha durante a gravação de Traduzir-se. Outro parceiro, o fluminense Abel Silva, acrescenta: "Ele está dando vazão a um lado dele, essa veia espanhola-árabe, que eu acho bonita, mas com a qual não tenho contato. Ele está indo para o livro, e eu saindo". Fagner sabe para onde vai. "Para um criador, ainda não consegui tudo. Oexemplo disso é que não sei uma nota musical. Ainda posso me aprimorar. A referência musical que tenho são os Beatles. Vou ter mais força que os Beatles porque sou de uma cultura mais forte. No mundo inteiro, onde me escutarem, vão saber quem é o Fagner. A respeito de onde está agora, tem igualmente uma idéia precisa: "estou como Bob Dylan dez anos atrás". Juntamente com o fato de considerar-se uma pessoa "protegida", para quem as coisas teriam de acontecer de qualquer jeito, Fagner acha que chegou onde está graças sobretudo a sua disponibilidade total para a música. "Não me entreguei a nada, nem a ninguém", diz. "Abdiquei de todo o resto". Sem dúvida. De romances, não se ouve falar. Ele diz que não tem o casamento como projeto de vida, pelo menos até agora. Teve uma grande paixão entre os 17 e os 20 anos de idade, e outras ao longo dos últimos anos. Nenhuma delas suficientemente forte, contudo, para deslocar suas atenções da carreira. "Minha vida pública é o meu trabalho", diz, e este é um dos raros temas que o levam a agir defensivamente. "Quando tiver que anunciar que vou casar, eu o farei. Enquanto isso sou um cara sozinho." A solidão, confessa, incomoda. "Incomoda, mas me beneficia bastante, instiga o meu lado criador. A gente não vive só das coisas agradáveis, tem que saber transar com o calo no sapato." Tenho transado bem com isso aí". Afirma que tem sido poupado das insinuações sobre homossexualismo que costuma cercar a vida de tantos artistas solitários. "As pessoas querem que você fale tudo, declare tudo", protesta. "Mas não quero. Por ser tão aberto para umas coisas, tenho o direito de ser fechado para outras." Tanto quanto não gosta de falar de sua vida íntima, Fagner aprecia falar de outra paixão que corre paralela à música: o futebol. Fluminense convicto - desde que Rivelino jogava lá - mas ainda fiel ao seu Fortaleza, tiete dos grandes craques, frequentador das concentrações, é amigo constante de Sócrates, Zico, Afonsinho, entre outros. No início deste ano ele inaugurou em grande estilo o campo de futebol que mandou construir em sua casa cearense - convidou e levou a maior parte dos jogadores da seleção brasileira por conta da CBS. Ao lado do campo, construirá um estúdio de gravação para gravar no Ceará com todo o conforto que teria no Rio, sem largar a bola. Frequentador da maioria das peladas regulares do Rio, entre as quais as da casa de Chico Buarque, Fagner é tão imodesto no futebol quanto na música. Garante, por exemplo, que se tivesse se dedicado ao futebol, hoje seria jogador da seleção, com lugar certo no time que vai à Espanha. "Me dê uma semana correndo na praia e tenho lugar em qualquer time do Brasil." Qual a posição ? "De lateral direito a ponta esquerda, qualquer uma", responde de bate-pronto. "Sou útil a qualquer time, tenho paixão quando entro em campo, batalho, faço gol e ultimamente tenho me transformado num artlheiro nato: pergunte ao Reinaldo, ao Zico, ao Sócrates." Perguntamos ao Sócrates. E assim como Fagner é respaldado na música pela fé depositada por Muñoz, no futebol ele tem de Sócrates palavras de elogio - ou no mínimo que não destroem os sonhos de grandeza do cantor: "Ele é um centro-avante que bate bem com os dois pés, cabeceia e tem uma gana de gols maior do que a minha." E o doutor dá a definição final: "Ele joga futebol bem melhor do que eu canto; deu pra sacar ?" De qualquer forma, Fagner diz não se sentir nada frustrado por estar fora da seleção nacional. "Isso me poupa o contato com os cartolas do futebol que são bem piores que os cartolas das gravadoras." Sua aversão pela cartolagem, aliás, é aprofundada quando ele se dispõe a falar do país. O Brasil, para ele, é um lugar onde a "estrutura"e o "esquema" são "escrotos". "Aqui existe um sistema de aparar as pontas: eu sou o contrário, eu corto as pontas." Quanto à política, apesar de identificado com as esquerdas, acredita que nem a ideologia da esquerda e nem a da direita dão certo. "Estas coisas só dão certo na cabeça e a estabilidade do ser humano independe disso." Mas considera que a abertura tem caminhado, se bem que ainda não atenda aos desejos do povo. "O presidente Figueiredo anda tão apagado que nem sei o que será de seu futuro." No que diz respeito à outra política - a política do corpo - Fagner é admirador entusiasmado. "O grande barato do mundo é quando o corpo e a cabeça comportam toda a sensualidade, mas infelizmente o povo brasileiro ainda não está preparado para isso." Quanto a drogas, pensa que são importantes desde que sirvam como divertimento, mas devem ser respeitadas pelo poder que têm. "Não tenho problema de drogas; não gosto de cocaína (tenho faringite e odeio uma coisa que passa por meu nariz e tampa a minha garganta) e maconha é relaxante (só que eu não posso viver relaxado). "Provei tudo, mas sou uma pessoa que fica só na sua". Mas nestes últimos tempos ele tem estado cada vez mais na dele, mais relaxado, mais tranquilo. No entanto, essa mistura cearense de Muhammad Ali com Dadá Maravilha promete continuar brigando, arreliando, provocando. "Eu rompi com a ditadura literária", sintetiza, arrastando ainda mais a sua voz fanhosa. "Rompi com todos os padrões brasileiros de um jeito que nem o tropicalismo conseguiu. Eles vinham estereotipados dizendo bonitinho: "Você toma Coca-Cola, ela fala em casamento". Eu fui por outros caminhos e vapt!, rompi com tudo sem ninguém me entender, sem ninguém gostar de mim. E sem ninguém pensar que eu pudesse chegar lá. Isso é a verdadeira revolução."