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Fonte: Revista Amiga
Data: 18/12/81
Repórter/Jornalista: Sílvia Costa
Título: "Sou, há muito tempo, o cara mais importante
do Brasil"
Ele reage como um apaixonado em tudo que defende e realiza. É o maior fã de si mesmo e afirma, com muita naturalidade, que foi assim que aprendeu a impor a sua arte. Ganhou fama de rebelde porque só conhece a franqueza - hoje tão fora de moda - como linguagem. Mas também foi definido por Mercedes Sosa como "uma pessoa extremamente terna, sensível e doce." Na verdade, é um puro, daqueles raros, porque não sabe mentir ou dissimular, só diz aquilo que pensa e não faz gêneros para agradar ninguém porque detesta máscaras. Por tudo isso aí, ele foi marginalizado pelos adeptos do faz-de-conta, das falsas aparências. Afinal, havia se tornado um inconveniente, uma pedra no sapato de muitos. Mas não desertou. Como bom nordestino, não perdeu a fé nos dias férteis. E quando chegou a hora, plantou bonito. Agora vive em tempo de colheita. Nada mais justo para este talentoso cearense/índio/libanês que se traduz pelo nome de Raimundo Fagner Cândido Lopes.
- Por fazer afirmações como "sou a figura mais importante da música brasileira, mais importante que a bossa-nova, a tropicália, sou uma figura revolucionária", você ganhou alguns adjetivos como narcisista, cabotino, arrogante, etc. Alguma coisa contra, Fagner ? - Esse negócio de rótulos são coisas que acontecem. As pessoas que rotulam estão se auto-rotulando para mim. E eu não sou contra nada disso. A gente vive num mundo em que isso também existe. Eu tive que impor o meu trabalho e hoje sou respeitado, muita gente gosta de mim. Mas muita gente passou a gostar de mim, depois que me viu brigando por aquilo, aí passou a me entender, porque não tinha espaço, tá entendendo ? Eu sou de uma geração que chegou, absolutamente, com as portas fechadas. Então, a minha vitória não é apenas minha. É uma vitória da cultura brasileira, moderna, contemporânea. Quando eu digo que sou mais importante que a bossa-nova, que o tropicalismo, é porque hoje eu estou fazendo um trabalho que eles não estão mais fazendo. E eu estou atuando, atuante, abrindo portas para outros artistas, mudei a filosofia da maior gravadora, hoje, no Brasil, fiz mil coisas. Eu pintei o sete. Então, eu tenho que assumir. Não é porque as pessoas não digam...Eu não vou fazer como os caras que esperam que morram para exaltarem depois. Eu sou mais chegado a Glauber Rocha, pra dizer "o cinema novo, je suis moi"do que ficar esperando que as pessoas reconheçam o meu trabalho. Não, principalmente num certo meio da imprensa brasileira, que é altamente conservadora, que quer manter os ídolos que já morreram e que não quer admitir... Então, além de eu estar nessa batalha aqui, eu tenho contra mim um preconceito que existe contra nordestinos no Brasil, tá entendendo ? E eu estou abrindo também essas portas, estou escancarando. Eu sou, há muito tempo, o cara mais importante do Brasil. Agora, hoje eu posso falar isso e muita gente aceitar mais, porque eu estou fazendo muito sucesso, sou um dos maiores vendedores de discos do país, aí nego acha ótimo. Mas eu já sou, ó, faz é tempo.
- E por falar em nordestinos, certa vez você endossou uma declaração de Renato Aragão numa entrevista em que ele colocava o seguinte: nordestino quando enriquece vira pilhéria, porque costumam associar o povo daquela região com flagelo, humildade, independente do nível cultural. Você também sentiu isto na pele ?
- Eu não aceito que ninguém exija que eu seja humilde. Eu sou humilde com o próximo, com você aqui, com ele acolá. Agora, com as proximidades, nunca. Eu acho que a criatividade independe da humildade. A humildade é outra coisa, deve ser colocada em outro departamento. Humildade é o que o poder quer das pessoas que é pra conseguir pisar nelas. Eu detesto, gente humilde demais eu já não gosto. Eu não gosto deste papo de humildade. Eu acho que humildade é o respeito que você tem pelas pessoas, mas você tem que se respeitar também. Então, esse negócio de ser muito humilde é papo de conservadorismo, tá entendendo ? É papo de gente que quer fazer média, de gente com segundas intenções. Eu sou o que sou. Tem horas que sou humilde, tem horas que sou arrogante. Eu sou tão temperamental como a temperatura. Eu vivo o mundo que eu vivo, respiro o ar que respiro do dia-a-dia e não vou ser humilde, não vou ser prepotente, eu não vou ser nada. Eu vou ser aquilo, naquele momento, o que for preciso ser. Se alguém quiser passar por cima de mim, eu passo antes. Agora, se for humilde comigo, eu sou mais humilde ainda, tá entendendo ? Então, esse negócio são pessoas que querem lhe colocar no canto, pra você não se mexer, pra você calar a boca, entendeu ? Mas, realmente, eu não entro nessa, não.
- O que você tem a dizer sobre essa fama de rebelde ?
- Não, pelo contrário, eu sempre fui uma pessoa muito doce. O que me fez rebelde foi justamente a minha posição diante do espaço que não existia. Então, assumi uma rebeldia depois que eu, por exemplo, fui expulso da Philips. Aí eu passei a ser rebelde, tá entendendo ? Porque eu estava fazendo uma coisa que me parecia justa e estavam dizendo que não. E foi reduzido o meu espaço, fui marginalizado e eu passei a assumir uma rebeldia com toda justiça, porque eu estava sendo marginalizado. Eu ia o quê ? Achar ótimo isso aí ? Se eu tivesse achado ótimo, eu não estaria onde estou hoje, tá entendendo ?
- E qual era o teu problema ? Queriam impor alguma coisa ? Negavam liberdade de criação ?
- Não, liberdade de criação nunca niguém se meteu, porque eu já cheguei aqui endossado pelos maiores artistas do Brasil, como Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Elis Regina, Erasmo Carlos, Ronaldo Bôscoli, tá entendendo ? Eu já cheguei aqui com a corda toda. Então, não podia ninguém de gravadora dizer o que era que eu tinha que fazer, porque eles já estavam dizendo que eu era bom. Então, graças a Deus, graças aos meus amigos de classe, eu já pude chegar com muito respeito. Mas brigar com gravadora, eu brigo até hoje. Na CBS, eu tenho brigas constantes porque, realmente, eu não me adapto a isso aí. A filosofia das companhias, das gravadoras, é sempre uma coisa que não tem nada a ver com a filosofia do artista. E eu sempre brigo, porque estou sempre achando que estão querendo me passar pra trás. E é verdade.
- Antes de você levantar a bandeira da música nordestina, havia algum tipo de preconceito contra o gênero ? Quiseram fazer a tua cabeça vendendo uma imagem tipo pau-de-arara ?
- É, isso sempre existiu. Agora pra mim isso nunca pesou. Eu sempre tirei isso de letra, porque se tivesse realmente pesado eu teria sido mais um sacrificado. A minha bandeira foi justamente contra-atacar, tá entendendo ? Eu não assumi o desgraçado, o pobrezinho coitado... pelo contrário, eu sempre achei que as pessoas que têm essa postura já eram, já morreram... Essa filosofia já era. É por isso que eu pareço tão rebelde, tão prepotente, tão narcisista e não sei o quê. Eu não quero saber. O que é meu eu quero na minha mão. E não aceito. É por isso que existem essas brigas todas. As pessoas acham que eu estou muito bem, então não querem dar o que é meu. Eu acho que, brigando pelo que é meu, todo mundo vai poder brigar pelo que é seu também. É uma referência a mais. Esta posição que eu assumo já vem de referências que eu tenho de outras pessoas, talentosas, que puderam brigar pelo seu espaço.
- Comenta-se que houve um tempo em que Caetano Veloso ressaltava muito o Recôncavo Baiano de um lado e você, do outro, puxava a brasa para a sardinha do Ceará. Foi isto que motivou a velha rixa entre vocês ?
- Não, pelo contrário. Acho que os baianos só falam na Bahia e eu nunca falei no Ceará, porque nunca divulguei o seu nome em músicas minhas. A única música que eu gravei que fala no Ceará faz referência ao Cariri. Eu nunca abri a boca para falar no Ceará, mas os baianos só falam na Bahia. Eu não tenho nada contra, mas isso aí é mentira.
- A troca de gentilezas entre você e o Caetano começou como ? Nesse último disco, Traduzir-se, a faixa Flor do Algodão tem um verso que diz "Araçá azul, manera fru fru..." Algum tipo de recado ? - Não isso pra mim é uma referência do começo do meu trabalho. Foi na época em que eu lancei o Manera Fru Fru e o Caetano lançou o Araçá Azul. Nada mais do que isso.
- Recentemente, através de uma revista, Caetano voltou a falar sobre você. Isto não acaba nunca, Fagner ?
- Primeiro, a revista diz bem o nome que intitula o seu rótulo e, segundo, o Caetano adora a revista. Eles fazem muito bem o jogo, juntos. E eu não tenho nada a ver com isso aí.
- Muitos artistas confessam que já provaram drogas. Ney Matogrosso, por exemplo, assumiu isto numa entrevista. E você ?
- O que eu provei e o que eu não provei não posso passar para as pessoas. Eu não posso incentivar nada. Eu incentivo as pessoas a gostar do meu trabalho. Agora, a minha vida particular, a minha experiência com a vida, eu não posso passar para as pessoas, porque eu não tenho direito nenhum de incentivar ninguém, de uma maneira ou de outra. Agora, eu não sou uma pessoa que ignore nada na vida e nem aconselho ninguém a ignorar nada, tá entendendo ? Apenas isso.
- A figura do homem, hoje em dia, está mais suave, mais frágil. Virou moda, inclusive, usar brincos, ter cuidados com a beleza, etc. Você sempre se apresentou com uma imagem, para muitos, forte. Tinha até um lance guevariano no início, não é ? Mesmo assim, sem fazer o tipo bissexual, você desperta paixões em homens e mulheres . Como você explica isso ?
- Eu acho que a minha imagem forte é porque eu uso calça e camisa comuns. Eu não uso paetês, nem me fantasio, nem nada. Pô, isso é forte ? Isso é comum. Agora, paixões que eu desperto em homens e mulheres é porque tenho respeito por eles. Tanto mantenho relações de amizade com homens quanto com mulheres, tá entendendo ? Eu não faço diferença nenhuma. Acho que o amor que existe entre as pessoas independe da relação sexual. Então, isso fez com que eu não ficasse numa de machista ou feminista, ou não sei o quê. Eu sou uma pessoa neutra com relação a isso aí. Isso fez com que as pessoas se aproximassem mais de mim. Eu não fui contra nem um lado nem o outro. Sempre fui uma pessoa normal, uma pessoa que não ficou propagando que ganho dez mil mulheres ou que transo com homens. Então tá tudo aí. Eu não misturei e todo mundo gosta de mim. E eu gosto de todo mundo.
- Então você não é contra o homossexualismo ?
- Não, não sou contra de jeito nenhum. Quem quiser transar que transe... Como eu não sou contra as drogas... Eu acho que quem estiver a fim, vá fundo.
- Para você, análise é moda ou necessidade ?
- É um lance muito urbano. Agora, isso não quer dizer que seja moda ou necessidade. Para uns pode ser moda, para outros, necessidade. Mas a moda, em si, acredito que tenha sido gerada de um lance urbano, porque eu duvido que lá, em Orós, nego esteja usando essa moda de psicanálise. Agora, acho importante para as pessoas que realmente precisam, que se envolveram num nível tal de informações e situações que precisam de analista, mas também não vão ter solução nenhuma, tá entendendo ? Eu acho que análise não dá solução a ninguém.
- Quer dizer que você nunca faria análise ?
- De repente, eu posso até fazer. Mas eu estaria agindo como um tonto, totalmente me contradizendo de tudo que vivi até hoje. Sei lá...
- Dizem alguns críticos que, se você quisesse, poderia cantar menos gritado e que você força muito as cordas vocais. Você concorda, Fagner ?
- Olha, eu preferiria dizer aos críticos que mudem de emprego, tá ? Só isso aí. Só que eu sei gritar e eles não sabem escrever. Existem grandes críticos no Brasil, mas se contam nos dedos. O resto é tapeação.
- Corre um boato que você só ajuda artistas nordestinos. É verdade ?
- Bem, seria fantástico se isso fosse verdade, porque eu preciso também defender o meu povo, né ? Mas não é verdade. Por exemplo, ultimamente, fiz um trabalho incrível com a Nara leão, eu já produzi discos de pessoas que não são nordestinas, como Copinha, tá entendendo ? Eu convido, assim, nos meus shows, como no meu especial de televisão feito recentemente, pessoas como Cauby Peixoto, Zizi Possi, por exemplo. Eu convidei a Mercedes Sosa... Será que nego tá pensando que ela é nordestina ?
- ...até que ela parece, né ?
- Bem que ela parece. Ela tem apenas o talento do nordestino. Agora ela me convidou para produzi-la, o Serrat me convidou para produzi-lo no Brasil. A Ariola me convidou para produzir o Serrat... Não, eu sou um produtor universal, internacional, brasileiro. Só isso.
- O sonho de ser o cantor das multidões foi realizado ?
- Há muito tempo. Desde que eu comecei a fazer shows, eu nunca cantei em lugares vazios. Em 1976, eu lotava o MAM (Museu de Arte Moderna do RJ). Já lotei o Tereza Rachel (RJ), onde eu passei, lotei. Então, em 1979, enquanto o Cruzeiro e o Atlético jogavam com 29 mil pessoas, eu fazia um show, na mesma hora, para 60 mil pessoas, em Belo Horizonte, tá entendendo ? Eu sou a grande estrela deste país faz muito tempo. Agora, este país, como só gosta de ídolos de cabelos brancos e só recebe informações atrasadas, hoje está me dando mais coisas do que antes.
- Na dé cada de 70 você afirmava que ser ídolo é uma piada. Você ainda continua pensando assim, Fagner ?
- É uma piada para quem não é, pra quem nunca vai ser, tá entendendo ? Eu acho que ídolo é uma coisa que faz parte daquela pessoa que é coroada por seu trabalho e que é reconhecida. Agora, nós somos seres humanos, mas o nosso trabalho é coroado como coisa de rei, de ídolo. E a gente deve respeitar isso porque essa relação existe. Então, eu estaria mentindo para uma pessoa que compra todos os meus discos, que adora minhas músicas e que me ama, ao dizer que não sou um ídolo. Sou ídolo dessa pessoa, tá entendendo ? Agora, eu não posso me figurar de ídolo, eu não posso vestir a carapuça de ídolo. Sou um ser humano comum, igual a outro. Mas que sou um grande ídolo, sou.
- Toca violão, piano, faz arranjos e produções musicais, além de cantar e compor. Um polivalente ?
- Ah, eu pinto, jogo futebol, faço tudo que for pra fazer, tá entendendo ? Se me botarem num lugar onde só se quebram pedra, eu vou tentar quebrar pedra melhor que todo mundo. A minha vida é um exercício. Então, tudo que eu fizer tem que ser feito da melhor forma. Se não tiver alguém que faça melhor do que eu por perto, eu vou acabar sendo o melhor. Acho que todo mundo deve fazer isso aí. Deve se acabar com esse negócio de que "fulano, você só sabe acender lamparina, você só sabe cantar ou você só sabe dirigir, tá entendendo ? Isso é mentira. O ser humano é dotado pra tudo, então ele tem o QI aberto. E as pessoas fazem tudo para rotular, pra reduzir o espaço, não sei o quê... Então eu faço tudo: varro uma casa, sei cozinhar, trocar uma lâmpada, fazer uma mesa, sei fazer tudo. E acho que todo mundo sabe fazer isso aí. Não sou eu só, não. Só que o meu é divulgado, tá entendendo ? Eu fiz uns quadros lá em casa que os espanhóis chegaram e disseram que parecia com a primeira fase de Picasso, tá entendendo ? E eu estou dizendo isso só pra encher o saco dos críticos de pintura brasileira. É verdade, o meu trabalho é altamente incrível e eu só pintei durante seis meses na minha vida, em 1975. Então, eu quero servir de incentivo pra todo mundo que queira fazer as coisas. Que não impeçam uma pessoa de chegar e sentar ao piano e tocar, de pegar uma guitarra e tocar, de fazer um ritmo...tudo, tudo... cuidar de plantas...O mundo é aberto. E que não se deixem rotular por isso. Eu odeio rótulos.
- O nordestino é um povo muito místico. Você...?
- ...também. Eu encarno Lampião, Antonio Conselheiro, Padre Cícero, tudo isso aí está dentro de mim. Eu posso dizer uma palavra que pode mudar a vida de uma pessoa, como já conteceu... Eu conversei com uma pessoa e, dois anos depois..."rapaz, eu tava tonto, você me disse uma coisa, eu fui fazer e deu certo". Tá entendendo ? Você pode curar uma pessoa, todo mundo pode. Nós, lá no Nordeste, temos aquelas mulheres que rezam com aquelas plantas e curam as pessoas. Eu posso chegar pra uma pessoa e dizer uma palavra confortante, que pode curá-la, como muita gente pode me curar também.
- E a sua transação com Deus ?
- É interior, muito forte. Eu acho que tem uma coisa que me move, que move todo mundo e que a gente deve respeitar acima de tudo. Isso é Deus, pra mim. Agora, eu deixei de ir à missa, de rezar o terço todo dia. Eu rezo nos momentos em que estou mais tranquilo ou muito agitado, eu tenho as minhas orações também, mas não fico debulhando o terço nem fazendo propaganda da Igreja, porque realmente não estou a fim. - Amor brabo, amor paixão. Pelo menos é isso que você passa na maioria das músicas que escolhe pra gravar. Essas emoções estão dentro de você ?
- É verdade, mas eu me seguro muito. Sou muito seguro com esse negócio de amor, porque já passei muitas decepções. Mas é um conflito muito grande porque eu sou uma pessoa altamente apaixonada. Eu me apaixono muito facilmente e dificilmente me desapaixono. Eu me apaixono muito fácil, assim, pela vida, pelas coisas, pelas pessoas... Então realmente, dá um medo porque você não pode estar se entregando o tempo todo.
- A escolha de Fanatismo, por exemplo, para o repertório desse último disco representa uma situação que você está vivendo no momento, Fagner ?
- Eu acho que isso é um recado que você... vou até dizer o que uma fã falou no telefone: "Isso aqui é um recado que poucos merecem ouvir." Por isso está fazendo tanto sucesso. Porque o amor também ficou tão confuso: amor em grupo, todo mundo trepando, aquele negócio assim, que virou uma esculhambação. Então, o respeito de um pelo outro tá acabando... E uma pessoa chega e diz que você é o princípio e o fim... É uma coisa tão rara, embora seja tão fácil, tão aí, tão comum pra todo mundo, que eu acho que é por isso que está fazendo tanto sucesso.
- Você acredita que as pessoas estão com medo do amor ?
- As pessoas estão com medo do amor porque o amor também está muito gasto, muito vendido por aí, em comerciais de pastas de dentes, de combustíveis, de refrigerantes... Todo mundo tem muito amor pra dar, todo mundo fala muito em amor sem saber o que é, eu acho. Acho que todo mundo pensa que amor é transar, essa coisa assim. E é também, mas não é só isso.
- Andam dizendo que na hora de musicar Fanatismo você desenvolveu muito a melodia do Roberto Carlos, no todo, embora isso esteja claro apenas no final da faixa...
- ...primeiro que tudo, eu acho que poderia até ter desenvolvido, porque a música popular é comum aos artistas populares e não existe uma música popular, existe uma coincidência popular. Isso aqui seria uma aula, que eu não seria a pessoa mais indicada para dar. Mas acho que seria uma coisa a ser estudada, pra ver como é que é a relação da música popular, da criatividade popular entre os artistas. Então, eu acho que a música popular se transfere, ela passa entre as pessoas. Agora, isso aí é uma coisa que... Não estou nem ligando pra quem disse isso... Você vê, por exemplo, a minha briga com a família da Cecília Meirelles tá continuando. Eu não estou na briga, mas elas já estão brigando com outros artistas, continuando, quer dizer, eu acho isso uma loucura, falta de interpretação, de informação do que realmente é isso. E eu não posso dizer aqui porque é muita coisa... Só quero dizer que, com relação às pessoas que pensam que eu deturpo ou que faço plágio ou qualquer coisa assim, eu não faço e tenho a minha consciência tranquila disso aí. Então, é melhor que elas procurem se informar para saber direitinho...
- Na escolha de seu repetório, nota-se uma preocupação muito grande com a qualidade das letras, algo muito seletivo. Você é um perfeccionista ?
- Pois é, tem pessoas que entendem isso aí que você está dizendo, que eu sou preocupado com a poesia, com o recado, que não estou interessado apenas num disco pra fazer sucesso,com a qualidade e tal. Mas tem pessoas que estão interessadas em ver se tem plágio naquilo ali. Não estão interessadas em saber o trabalho que estou fazendo com os poetas... Eu estou fazendo um trabalho de poesia, tá entendendo ? Que eu acho que é seriíssimo, sabe , uma coisa intuitiva... De repente, quando eu paro pra olhar pra trás, vejo que estou fazendo um trabalho de cultura dentro do disco, que é uma coisa que está se acabando. Todo mundo, quando o disco começa a fazer sucesso, passa a fazer coisas fáceis só pra vender, tá entendendo ? E eu continuo lá, buscando uma poetisa portuguesa, pegando o maior poeta brasileiro, que é quase desconhecido porque o trabalho dele é mais veiculado com a literatura, que é o Gullar... E, de repente, tá todo mundo aí cantando: "Uma parte de mim é todo mundo..." Então, isso é um trabalho seriíssimo, importantíssimo, e tem pessoas cultas que entendem isso, mas outras estão mais interessadas em saber se estou deturpando e aí vem...Por exemplo, a própria família da Cecília Meirelles está tendo um desrespeito tremendo com a obra da poetisa, porque já está encarando de outra maneira e não sabe que está dando uma mancada perante a opinião pública. Estão desgastando a imagem da Cecília Meirelles, eu acho...
- Aqueles que criticavam você, na década de 70, hoje tiram o chapéu ?
- Acho que eles não tem nem chapéu... Agora, realmente, hoje eu passo por muita gente que me pichava e que não sei o quê, e elas me elogiam. Mas isso eu recebo com a maior humildade. Acho que todo mundo tem o direito de errar e também o direito de ter uma exigência maior e podem achar que hoje é que estou bem... Acho que naquela época eu só atingia um determinado tipo de gente, não atingia essas pessoas. Mas tem um tipo de gente que não, que nunca vai se recuperar. Mas tem outro que tinha um nível de crítica, de necessidade muito maior, que é onde estou hoje, com um espaço maior. Já tenho mais músicas e as pessoas podem ter mais referências. Então, acredito nisso também, que eu era muito pequeno pra determinadas expectativas...
- Sabe-se que você tem muitas poesias guardadas, de boa qualidade. Então, por que não faz uso de suas próprias letras, preferindo musicar outros poetas ?
- É aquele negócio, por mais incrível que pareça, sempre fui um cara - embora me chamem de narcisista, individualista - mais coletivo. Meus discos sempre apresentam trabalhos dos outros, sempre respeitei trabalhos dos outros. Eu poderia fazer um disco só com músicas e letras minhas, porque eu teria condições... Mas eu sempre achei que algumas pessoas tinham coisas seriíssimas, que me tocavam muito fundo e que eu tinha que passar isso aí, como é o caso do Petrúcio Maia, que é um grande compositor, Nonato Luiz, Sueli Costa (ela já tem mais divulgação e tudo o mais), o Zé Ramalho, Patativa... São algumas das pessoas que, na maioria, se eu não gravar, não vão gravar. Então, essas pessoas me emocionam muito. Pessoas como Clodô, Climério e Clésio, Abel Silva (que foi uma pessoa que praticamente começou a ser divulgada comigo), o Fausto Nilo... Então, eu respeito o trabalho dessas pessoas, que caminha junto com o meu. Eu achava que aquilo tudo compunha o pensamento. Eu, sozinho, não daria conta do recado. Sempre tive condições de abrir mais essa coisa, fazer algo mais coletivo. Mas eu tenho o meu trabalho, eu tenho poemas de todos os anos, eu sempre escrevi, tenho cadernos e mais cadernos lá em casa. No dia em que eu quiser da uma geral, passar a limpo e fazer um livro de poesia, vai estar tudo aí, pode ser até uma coisa surpreendente pra muita gente o que eu escrevi e não publiquei. Pode até ser resposta pra muitas perguntas aí.
- E a sua Yoko Ono ? Já apareceu ?
- Isso parece coisa da minha mãe, me cobrar porque ainda não casei...Eu acho que casamento é uma coisa que pode te dar tanta solidão quanto você estar sozinho. Então, não quer dizer que não goste de ninguém o suficiente pra me casar, mas, realmente, eu já reformulei isso aí. Pelo contrário, hoje se eu encontar uma Yoko Ono na minha vida, eu fujo é correndo, porque pode ser que ali é que esteja a minha prisão, pode ser que ali é que eu morra, sabe ? Uma mulher que eu ame demais, que seja tão possessiva, que vá me dar todos os confortos pra mim vai ser o meu cemitério, porque vai romper o meu laço com a vida. Então, eu acho que a minha vida é isso aí: a música, as pessoas, o meu trabalho e a minha liberdade, sabe ? Quando eu quero estar com alguém, eu estou, quando quero estar sozinho, estou. De repente, estou sozinho e baixa uma solidão danada. De repente, estou acompanhado das mulheres mais bonitas, as pessoas mais legais e tô assim... seco, olhando aquilo ali, nada está me agradando. Então, o meu projeto é o projeto vida, quer dizer, você não tem que programar nada. Deixa correr o barco como tá, não mexe nada. Não se mexe em time que está ganhando, tá entendendo ? Esse negócio de casamento, se fosse tão bom, não teria tanta gente se separando e deixando tantos filhos desamparados... Então, eu já vi pessoas descobrindo no casamento a maior felicidade do mundo e depois ele dança com poucos meses, poucos anos. Se pintar de eu me casar, vou me casar. Se não pintar, ó, vou como tá que está ótimo.
- E essa paixão por futebol ? Dizem que você é um craque ?
- E sou mesmo... O poeta (Chico Buarque) que não me deixa mentir. Já marquei muitos gols no campo dele. Inclusive , eu entreguei um troféu agora ao Zico e Sócrates, convidando-os para um encontro que vai ter em Canelas, em maio de 82, entre os artistas da bola e os artistas da música. E eles tem uma certa relação com a música. Esse encontro vai ser uma coisa importante, no sentido de podermos brigar pelos nossos direitos, já que somos tão passados pra trás.
- Depois de Franco, eu fui o primeiro a fazer uma revolução na Espanha. Com esta afirmação você abriu o seu espaço fora do Brasil. Foi uma coisa planejada ou intuitiva, Fagner ?
- Foi uma coisa absolutamente intuitiva. Tão intuitiva quanto a minha declaração de que depois de Franco fiz a primeira revolução... - o que eu acredito que esteja acontecendo na Espanha ultimamente - essa revolução musical, que não sou eu quem diz, foram os artistas que disseram, aqueles que participaram desse trabalho, que sentiram dentro de um projeto o que eles nunca viram, um projeto criativo, tá entendendo ? E eu falei essa coisa que perturbou muito as correntes intelectualóides e patrulhas, principalmente as patrulhas críticas brasileiras, que eu não sei quando é que vão acabar. Não sei quando é que os jornais de força e as revistas importantes ainda vão dar tanta cama e mesa pra pessoas tão incompetentes no mundo da crítica brasileira. Agora, eu quero dizer que o artista precisa da crítica e que ela é uma coisa muito importante na vida de um trabalho criativo. Mas no Brasil isso anda muito... anda dando uma diferença muito grande. A criatividade anda anos-luz na frente da crítica. E a gente sofre muito por isso, porque fica,de repente, pessoas sem nenhuma condição de competência analisando os trabalhos da gente, tá entendendo ? Então é uma coisa revoltante porque você não pode nem citar nomes que é pra não dar força a esse determinado tipo de pessoa, mas existem veículos muito importantes que estão sendo sendo prejudicados junto à classe artística por darem condições a determinados criticóides de falarem da gente. E falam qualquer coisa... É uma pena, porque eles se acabam em pouco tempo, mas a gente perde pelo fato de terem muito desrespeito com a gente. Mas eu só quero enfatizar que a crítica é importante, mas os trabalhos de crítica que se faz no Brasil poucos são os que tem valor. O resto é muito medíocre.