Fonte: Revista Ele/Ela no. 141
Data: Janeiro de 1981
Repórter/Jornalista: Léo Borges Ramos
Título: O ídolo arrogante

Cearense de Orós, Raimundo Fagner Cândido Lopes, 30 anos, cantor, compositor, instrumentista e produtor de discos, desde os seis anos de idade persegue a fama. Atrevido, corajoso e sem modéstia, inspirou-se nos ídolos de sua vida - Joselito, Nelson Gonçalves, os Beatles, Roberto Carlos e Caetano Veloso - até tornar-se, ele próprio, o novo ídolo dos anos 80. Hoje, sua voz áspera e trêmula é reconhecida como uma das mais singulares e expressivas do mundo do disco e dos shows, mas só depois de lotar estádios e praças públicas e de vender mais de 200 mil exemplares do LP Beleza é que a crítica nacional reconheceu haver novo valor na praça. ELE ELA esteve em Fortaleza, na casa dos pais do artista, e mostra aqui o que houve de fundamental numa longa e descontraída conversa.

Às sete da manhã já era impossível continuar dormindo no Hotel Savanah de Fortaleza, não só pelo desconforto do apartamento, mas devido ao alto-falante da Praça do Ferreira, que refletia o bairrismo cearense na seleção musical: Rapaz Latino-Americano, de Belchior, Pavão Misterioso, de Ednardo, passando ainda por Zé Ramalho, Amelinha e Fagner. Ali perto, na Galeria Pedro Jorge, onde daí a pouco se encontrariam os violeiros, numa promoção da CNBB, uma passante em compras de Natal explica quem é o cantor de voz áspera e primitiva que na eletrola da loja em frente tremia expressivo: "Eu sou fio do Nordeste/Não nego meu naturá/Mas uma seca medonha/Me tangeu de lá pra cá." Era Raimundo Fagner, numa música de Patativa do Assaré, gravada no último disco. -Wagner ? -Não. Fagner, com fê de forte, de fubá. É assim que soletram o nome do cantor e compositor: fê-a-guê-nê-ê-rê, Fagner. Outros explicam que é o irmão do Fares, presidente do Fortaleza. Mas pouca gente sabia que o cantor estava na cidade para as festas de fim de ano com a família. O motorista de táxi soube no trajeto para o bairro de Fátima e, enquanto pegava o retorno da Avenida Aguanambi para entrar na Rua Arthur Timóteo, onde moram os pais de Fagner, se empolgava: "Então é capaz de ele cantar no churrasco do Fortaleza, domingo." Qualquer alegria, no entanto, naqueles dias, era ofuscada pelo pavor da seca que em outros anos atingia apenas o sertão, mas nas últimas semanas de 1980 ameaçava até mesmo a capital, pois há oito meses não caía sequer um sereno na bacia do Acarape, baixando a nível crítico a água do principal açude abastecedor. Mesmo os alienados colunistas sociais da quinta capital mais populosa do país agouravam que sem chuva o reveillon nada teria para comemorar. Só dona Chiquinha, uma nordestina miúda, mistura de cigana e índia, estava alegre, porque Fagner chegou: "Meu filho é bom demais, telefona todo dia, às vezes só para contar que chegou bem de viagem. Fico até zangada de gastar tanto dinheiro." No quarto do cantor, a bagunça de solteiro quando acaba de acordar: cinzeiros cheios, armários abertos, chuteiras debaixo do sofá. E dona Chiquinha traz queijo e café. "Nesta casa a estrela é ela", brinca o compositor abraçando a mãe. "Isto aqui é o ponto mais importante de minha vida", prossegue Fagner, sério. "Tenho minha casa, amigos, é nesse quartinho e nessa areazinha que faço o centro de minha vida, é onde me sinto melhor. Eu curto muito meu pai e minha mãe, demais mesmo, meu irmão, meus sobrinhos. O ambiente desta casa é muito importante para mim. Quando estou aqui, gosto de ser o mesmo menino que sempre fui, com o mesmo descompromisso, mesmo quando não dá. A força moral de meu pai e de minha mãe é muito importante para mim. " Sobre a mesa, uma porção de taças de campeonatos e festivais documentam vitórias tanto na música como no futebol, duas paixões. Na parede, cartazes de seus shows no Brasil e no exterior dividem espaço com uma rede de dormir e uma imensa foto de Rivelino vestido com a camisa da CBD. E a dedicatória afetuosa: "Ao meu irmão Raimundo Fagner com abraço do irmãozinho de sempre, Rivelino. 1/12/77." Pendurado num canto de fora do armário, uma faixa do tricampeonato do Flamengo, embora Fagner seja Fluminense. Espalhado em um dos almofadões jogados no chão, Fagner diz estar esperando ser convocado pela Seleção. "Sou um jogador de futebol frustrado." E, para provar que é um craque, exibe um recorte do Jornal do Brasil, com fotos e tudo, noticiando a recente proeza em um jogo em Minas, entre músicos e jogadores profissionais, com renda revertida a uma tribo indígena. Os artilheiros foram Sócrates e Fagner, este com dois gols, um a mais que o atleta. Essa euforia reflete-se até na capa do novo disco em que Fagner comenta seus gols no campo que Chico Buarque fez com o dinheiro recebido da gravadora Ariola: "Acabei o time do poeta, né, Novelli ?"E pouco adiante: "Marquei um golzinho em Campo Grande, agora só falta no Castelão. Tô um craque." A amizade com jogadores de futebol é antiga e conhecida: Reinaldo, Zico, Pintinho , Paulo César. Até já morou muitos anos com Afonsinho, no apartamento do bairro carioca de Santa Teresa, o que chegou a render algumas insinuações maledicentes. Mas o compositor de esquiva de falar de sua vida íntima. "Sou solteiro porque sou solteiro, assim como poderia ser casado. Casamento é coisa séria e não quero forçar a barra. Recebo propostas por cartas, telefonemas, mas não brinco com isso, já namorei uma fã e não deu certo. A adoração era pelo artista, apenas. Ainda não pintou a Yoko Ono de minha vida." Na varandinha, ao lado do quarto, Fagner diz que Fortaleza é para ele um ponto de referência, é onde se sente melhor. "O Ceará tem uma coisa muito diferente dos outros lugares. Só de chegar, está diferente. Eu me criei praticamente aqui e passando as férias em Orós, uma cidade bonitinha, pendurada nas serras, o gigantesco açude entre duas delas. Muito peixe, muita canoa, muita cana, terra das pessoas mais simples e belas que já vi. Em cada alpendre um potinho de água fresca, um canequinho areado, uma redinha bem limpinha." Fagner nem se recorda quando a música passou a fazer parte de sua vida. Da mais tenra infância, lembra-se dos saraus nas casas dos tios, todo mundo tocando, cantando na varanda. Daí em diante, sua formação musical tornou-se uma mistura, pois além dos forrós na roça, assimilou também o som dos discos dos irmãos, que eram de Ademilde Fonseca, Sílvio Caldas, Noel Rosa. "Eu vivia pondo estes discos. Tinha também meu pai, que é libanês e ficava cantando aqueles sons árabes. Eu era muito pequeno, não gostava, mas ficava de longe ouvindo. E me dava uma mistura de raiva e vontade de chorar... Fortaleza nessa época parecia coisa de cinema. Mudou muito. Era uma cidade incrivel, com poucas casas, só mato, e a molecada era ótima, se misturava, brincando de esconde-esconde, uma infância que realmente existiu. Depois tinha os rapazes que ficavam nas calçadas tocando violão." O cantor, que aos seis anos já se apresentava em rádio, também tocava seu violão na calçada, mas eram coisas diferentes dos mais velhos: seu ídolo era Joselito. "Eu era o que fazia menos sucesso. Qaundo pintou Roberto Carlos, o pessoal tocava, mas a turna da outra rua já estava curtindo bossa-nova, uma formação diferente. Alguns deles pintaram depois, como o Ednardo, que na época já tocava piano muito bem. Mas o melhor deles, o Nerício não pintou. Também o Jackson não pintou. Eu já sonhava com o sucesso, mas era discriminado, porque havia também uma diferença de idade grande, três anos. Sonhei uma vez que estava cantando junto com Joselito, Luís Gonzaga, Nelson Gonçalves, Vicente Celestino e Roberto Carlos, mas no fim da música, eles foram desaparecendo e quando vi estava sozinho no palco, sendo aplaudido." Antes, vieram os Beatles, e a primeira vez que Fagner ouviu I Wanna Hold Your Hand na rua, ficou parado, paralisado, sem saber o que era aquilo. "Aí teve aquela época de conjuntos. Entrei para um, lá do Colégio Piedade, Os Rebeldes, mas eu brigava com o cantor porque ele queria ensaiar só repertório de Wanderley Cardoso e eu queria os Beatles." Essas preferências musicais eram também razão de discriminação a Fagner pelos jovens universitários, preocupados com política e arte popular, que discutiam os rumos do mundo no Bar do Anísio. Havia também rejeição por ser ele secundarista. "Eu não era grande frequentador, fazia minhas músicas e minhas letras, mas os intelectuais não gostavam, pois eu era mais popular. O pessoal estava mais engajado, meu caminho foi diferente, não participei de greves. Eles me consideravam um garoto alegre demais; por isso, mesmo quando eu cantava na televisão, preferia voltar para casa do que participar dos papos culturais." Em 1968, Raimundo Fagner fez sua primeira tentativa profissional e venceu o IV Festival de Música do Ceará, com Nada Sou, feita em parceria com Marcos Francisco. Um crítico não gostou, comentando que o título da música já era uma confissão de insignificância. "Mas a crítica sempre foi assim." assegura Fagner. "Esse, por acaso, tinha também músicas no festival e foi desclassificado. A música no Brasil sempre evoluiu mais que a crítica. No Rio tem um ou dois honestos, São Paulo também. No mais, são historiadores, sem abertura interior. A gente nota isso no que eles escrevem. Essas mudanças porque a música está passando merecem uma crítica mais jovem, mais cuca fresca. Com raras exceções, o grosso que tem por aí é um pessoal que teve de segurar o emprego nos veículos conservadores em que trabalham e por isso só livram a cara de quem já está muito por cima. Assim mesmo, se pudessem, botavam pra quebrar em cima desses. O meu caso, por exemplo. A crítica sempre disse que minha voz era metálica demais, gritante. No entanto, é isso mesmo que eu quero fazer, uma coisa diferente dos que cantam de forma piegas, macia. Não que eu seja contra eles. É que tenho sangue flamenco, espanhol de origem nordestina. Mas meu público jamais teve dúvidas, sempre cresceu, a ponto de lotar estádios e praças públicas. Meus discos saltaram dos cinco mil iniciais para mais de 200 mil exemplares do LP Beleza vendidos." (Quando esta matéria foi escrita, o último disco, Vento Forte, lançado há um mês, já se aproximava dos 150 mil vendidos, o que garantiria para a mesa do quarto de Fagner mais um troféu, o Disco de Ouro.) Fagner jamais teve dúvidas de seu talento, e sempre dizia: "Vai ter um momento em que vão ter que tocar minhas músicas, seja eu feio, bonito, legal, grosso ou amável. Não vou pedir a ninguém para tocar minhas músicas, eles é que tem obrigação de saber que eu existo." E muitas vezes chegava a ser arrogante: "Sou a figura mais importante da música brasileira, mais importante que a bossa-nova, a tropicália, sou uma figura revolucionária. E olha que ainda não usei todo o potencial de minha voz, eu alcanço qualquer nota, canto qualquer coisa: Roberto Carlos, Agnaldo Timóteo, Frank Sinatra. O difícil é eles cantarem o que eu canto." Segundo seu parceiro, Abel Silva, Fagner não tem humildade porque não é nada cristão, mas muçulmano. O compositor acha graça disso e se justifica: "Não tem essa de fique calado que o seu dia chegará... Na hora que os outros acham que devo ser humilde é que acho que não devo. Por que o poder não é humilde e o povo tem de ser ?" Essa arrogância de Fagner já lhe causou sérios problemas. No início da carreira, foi levado por Roberto Menescal para a Philips como uma grande esperança, um rompimento de estruturas. E gravou o LP Manera Fru Fru Manera, uma crítica velada a Caetano Veloso. Mesmo iniciante, Fagner exigiu muito, e teve de sair: "Se eu fizesse o que eles queriam, eu dançava. Dentro da Philips eu era vítima da ideologia regionalista: baiano canta coisas baianas, cearense tinha de cantar coisas cearenses. Isso desfavorecia meu trabalho simplesmente porque ele não era baiano nem cearense. A política da gravadora era isso. Depois, vi também muita gente humilhada, tendo de fazer o que não queria, pois o sistema é cruel. Estar dentro e fazer o que gosta é difícil, mas não é impossível. Sempre briguei, e, por mais que minha imagem ficasse queimada, valeu a pena. Era uma briga aparentemente individual, mas na verdade era de classe, porque envolvia a relação artista-gravadora. E isso me deixava com certa tranquilidade de assumir qualquer posição como ser humano. Eu sabia que meu trabalho era vivo e importante. E, com o tempo, consegui provar isso e criar meu próprio espaço, que mostra o volume do meu trabalho, e que eu não era um marginal: o sistema é que era." Hoje, Fagner sente-se economicamente tranquilo, acha que poderia até deixar de trabalhar, pois só o que tem lhe daria uma boa renda mensal. Tudo ganho com música. Hoje, dá-se ao luxo de recusar cachês de um milhão e meio de cruzeiros, mas também canta de graça, se achar uma causa justa. Entre seus bens estão um luxuoso apartamento no Leblon, mais dois em Botafogo, outro em Santa Teresa, no Rio; terrenos em Cabo Frio; terras e casas no Ceará; carros e ações de uma indústria metalúrgica. Seu contrato com a gravadora CBS é do valor de 15 milhões, embora tenha recebido outras propostas milionárias: "Recusei as outras porque não quero estar preso a certos compromissos só por causa de dinheiro." Essa afirmação pode parecer demagógica, mas as atividades de Raimundo Fagner não se limitam a cantar e gravar. Cada vez mais vem atuando como produtor de discos, e foi ele quem abriu espaço para vários artistas como Amelinha, Zé Ramalho, Robertinho de Recife, Manassés e Nonato Luiz, sob o selo Epic. "Em março vou produzir o novo disco de Nara Leão." Além disso, é compositor, e para uma edição de suas composições ele tem um contrato com o Grupo Editorial EMI-Odeon, que administra as obras da Orós Produções Fonográficas e Artísticas, empresa de Fagner e seu parceiro Fausto Nilo, também cearense e colega de infância. Uma parte de todo esse patrimônio é administrada pelo pai, José Fares, que não queria que o filho fosse cantor, mas hoje orienta-o na compra dos imóveis. Cabeça branca, o velho construtor civil entra arrastando os chinelos pelo quarto do filho e expõe a situação de alguns bens ou a oportunidade de concluir certos negócios. Muito atento, Fagner traça decisões. Depois, abre o armário e apresenta ao velho um turbante libanês que ganhou de uma tia que mora em São Paulo. Emocionado, o pai mostra ao filho como se coloca o turbante e promete que esse ano voltará a ver sua pátria, de onde saiu aos 21 anos de idade. E da varanda seu José verifica que o tempo está nublado e lembra que os jornais noticiaram que choveu no sertão. Fagner sente grande desgosto em falar de direitos autorais e sentencia definitivo: "Eles botam a mão mesmo, roubam tudo da gente. Tenho certeza de que sou um dos três mais executados no país, no entanto não recebi um tostão a mais do que vinha recebendo com todo esse sucesso de Noturno." Sobre a inclusão dessa música como tema da novela Coração Alado, o cantor também não gosta de falar: "Qaundo um repórter já vem querendo falar disso, cancelo a entrevista. Tem gente que diz que meu sucesso veio por causa da novela, mas o disco já tinha vendido quase tudo antes da novela estrear. Outros dizem que me queimei, desgastei por causa da novela, mas é mentira. Faço shows pelo Brasil inteiro e está todo mundo emocionado ainda com a música. Quem gostava de meu trabalho como cantor e compositor em sete LPs não vai deixar de gostar por causa de uma música em novela. A esse tipo de comentário só posso reagir com cinismo, porque estou consciente do trabalho que faço." Toda essa tranquilidade de Fagner, no entanto, veio depois de muitos anos em que morou na casa de amigos e numa kitinete na Rua Barata Ribeiro, no Rio. Em Brasília, onde estudava arquitetura, ganhou um festival e veio para cá, participar do festival da Canção de 72. Foi desclassificado, mas conheceu muita gente importante do meio musical, inclusive Elis Regina e Ronaldo Bôscoli. "As vezes eu encontrava o casal nos restaurantes e eles perguntavam se eu queria jantar. Eu dizia que não, que já tinha jantado, mas estava morrendo de fome." E foi através de Elis que teve suas primeiras músicas gravadas: Mucuripe, Cavalo Ferro, Moto Um. Quando saiu da Philips, em 1974, todas as portas se fecharam para Fagner. "Pisei na lama braba". Estive na Continental, mas a gravadora estava naquele período complicado do fim do Secos e Molhados, desesperada, querendo que o Ney Matogrosso segurasse a barra. Portanto, foi uma passagem infeliz. Mesmo assim foi a única que topou fazer meu disco Ave Noturna. Mas não acreditava no trabalho, por isso não deu certo. E o disco era muito forte, pois meu canto saiu angustiado. Depois, Fagner viajou, foi conhecer Paris, fez shows no exterior e quando voltou com sucesso de crítica e de público, decidiu vencer de qualquer forma. E encontrou um público ávido de coisas novas na primeira apresentação na Universidade Federal do Rio: três mil pessoas. A partir daí, seu sucesso foi divulgado de boca em boca, sem apoio da imprensa, das gravadoras ou da crítica brasileiras. E o público crescia, reconhecendo nele uma personalíssima e influente maneira de interpretar. Em 76, Raimundo Fagner estréia na CBS, e a faixa Conflito consegue furar a barreira das rádios. No ano seguinte, ele lança Orós, com arranjos de Hermeto Paschoal, e que foi considerado por parte da crítica como um dos melhores trabalhos do ano. E 1978 pode ser considerado como um dos mais produtivos da carreira do compositor e cantor: no primeiro semestre foi aos Estados Unidos, onde manteve inúmeros contatos com Laudir de Oliveira, Airton Moreira, Flora Purim, Wayne Shorter, Ralph Mac Donald e Sérgio Mendes, entre outros, para futuros trabalhos; depois foi a vez de voltar à França e mostrar seu trabalho numa temporada na Salle Campagne Première, em Paris, tendo sido aclamado pela crítica especializada. Daí por diante, Fagner deslanchou. Na volta, lançou o LP Quem Viver Chorará, que logo nas primeiras semanas atingiu os primeiros postos das paradas de sucesso e levou uma legião de fãs a suas apresentações nas principais capitais brasileiras, ratificando de vez sua posição como um dos melhores cantores da MPB. A grande imprensa, no entanto, só se curvou ao seu sucesso quando, no dia 30 de abril de 1980, foi realizado pelo Cebrade o Show 1o. de Maio, no Rio Centro, com uma platéia de trinta mil pessoas. Embora contasse com a participação do maior bloco de cantores e compositores - dentre eles Alceu Valença, Ângela Ro Ro, Beth Carvalho, 14 Bis, Chico Buarque, Clara Nunes, Edu Lobo, Elba Ramalho, Francis Hime, Frenéticas, Ivan Lins, João Bosco, João do Vale, João Nogueira, Martinho da Vila, Milton Nascimento, Moraes Moreira, MPB-4, Paulinho da Viola, Roberto Ribeiro, Sérgio Ricardo e Zizi Possi-, mesmo assim o público não teve dúvida em aclamar Fagner como o ídolo maior. Devido a esse espetáculo, correu o boato que Fagner fosse filiado a um partido político. Mas ele protesta: "Quem disse isso devia estar de porre. Acompanho o noticiário porque quero ver onde é que isso vai parar. Mas a política está estagnada, mal mantendo as aparências. Existe uma porção de problemas brasileiros precisando de soluções imediatas e os políticos só falam em futuro. E há uma desonestidade geral. Os problemas do Nordeste só não são resolvidos porque tem gente que se beneficia com isso. Quem tem o poder está usando-o para o prazer pessoal." Esse é o estilo de Fagner encarar a vida e falar. Sem papas na língua: : Falo tudo, digo muita besteira também. Mas existe muita gente que fica calada só para parecer inteligente. Eu sou o que sou." Quando Fagner está em Fortaleza, sua casa fica cheia dos amigos de sempre. Eles invadem o quarto, prontos para a pelada ou a cerveja. O telefone chama sem parar, querendo combinar programas. "Qaundo chego, as esposas dos casados entram em pânico, ninguém chega na hora. Todo dia é futebol, bebida, praias, todos os dias a gente se encontra, vira um frenesi." E o compositor começa a falar dos amigos: "Fausto Nilo, nesses anos todos, é o que tem estado mais perto de mim. Acompanha meu trabalho 24 horas por dia. Era arquiteto dos mais bem colocados aqui e chegou a fazer grandes coisas em São Paulo, inclusive com prêmios internacionais. Largou tudo para ficar na música. Ele vai ser para essa geração mais recente tão importante quanto o Chico foi e continua sendo." Sobre outro parceiro, Abel Silva, diz que é o irmão mais maluco, liberado, solto, descompromissado. "Ideologicamente somos diferentes, ele está pouco ligado ao lado mais sério da vida." Depois de falar ainda de Afonsinho e Brandão, ele conclui: "Os amigos continuam sempre os mesmos, Ricardo Bezerra, Mino, Francis, Iron, Dedé, Bete, pessoas desses tempos todos, Marciano, Hamilton Melo, o pessoal das peladas, Serginho, as meninas..." Muita gente, que ele não esqueceu de citar na capa de Vento Forte, cheia de desenhos e rabiscos. Mas há também os desafetos. Caetano Veloso é dos mais antigos. O baiano chamara Fagner à sua casa, com outros convidados, e não quis cantar, dizendo-se cansado. Fagner, em início de carreira, pegou o violão e foi aplaudido diversas vezes. Caetano, enciumado, nunca mais falou com Fagner. Só se refere a ele como "titica de galinha". Fagner adota uma linha mais irônica: "Hoje não sei mais de Caetano, ele é quem sabe de mim. Se ele quiser uma carona no meu sucesso, venha, pois amo-o de coração." Depois mais provocativo: "Caetano está levando essa briga há muito tempo, ou será que está com o mesmo problema que Maria Matilde ?" (Fagner refere-se a uma das três filhas de Cecília Meirelles, e que entrou com uma queixa-crime contra a Philips e contra o compositor por ter modificado e usado um dos poemas da poetisa num disco. "Maria Matilde queria que eu pagasse uma nota por coisa que acredito um absurdo." Depois, ditando o recado, Fagner continua: "No fundo, estou divulgando a obra de Cecília Meirelles. Meu trabalho e de meus parceiros não estão aquém do trabalho de Cecília, com todo o respeito. A obra de Cecília está bem situada no meu trabalho. Mas Maria Matilde está abusando com seus sentimentos recalcados,e contra a minha vontade já retirou uma nota violenta da CBS. Cobrou até uma chamada comercial que fiz na capa do disco. Legalmente, ela não tinha muito a receber, uma nota tão pequena que nem recupera o tempo que perdeu e o ódio que destilou. Esse incidente, de certa maneira, cortou também minha espontaneidade de trabalhar com os versos de Cecília Meirelles, pois tinha mais três músicas para gravar, mas perdi o gosto. Maria Matilde ganharia mais se deixasse eu cantar essas músicas..." Não existe ódio, no entanto que subsista a uma chuva em Fortaleza. E de repente começa a chover. A euforia toma conta da cidade. Os amigos invadem o quarto de Fagner, cerveja na mão e todos saem para a rua, como se fossem para um mar de verão, de calção, arriando a capota dos carros. E Fagner, já na rua, reconhece: "Sou muito bairrista. Fortaleza é o melhor lugar de morar, está longe de tudo, não está prostituída pelo progresso, nem poluída. Quero morar mais aqui para brigar por nossas coisas. Acho que posso ajudar muito. É minha obrigação batalhar para manter as coisas, pois este é meu lugar. O desenvolvimento é inevitável, mas enquanto existir gente com essa terra nas veias, pode-se adiar. Não quero que Fortaleza fique igual a Salvador." E a cidade inteira sai para as ruas. As praias logo ficam cheias, todos comemorando a chuva que aliviou as tensões e o medo. E o povo alegre nas praias da Barra à Ponta do Mucuripe. Muitos reconhecem o cantor, alguns olham-no espantados, outros batem com intimidade em seu ombro. E Fagner explica: "Essa é uma das últimas entrevistas que dou nesta minha fase. Quero fazer uma viagem muito grande. Esse próximo ano quero mudar muito, vou tomar outro caminho, tentar outra linguagem."