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Fonte: Caderno B - Jornal do Brasil
Data: 1979
Reporter/Jornalista: Deborah Dumar
Título: Dominguinhos, Fagner e Manduka: A eles, os aplausos do "público
selvagem"
O público inquieto, impulsivo e por vezes selvagem do Festival 79 da MPB (TV Tupi) foi unânime em consagrar a interpretação de Raimundo Fagner, o vencedor com a música Quem me levará sou eu, de Dominguinhos e Manduka. "Jogando tudo" seu trabalho como intérprete foi irrepreensível. O recente episódio entre o cantor e a família de Cecília Meirelles, na questão de direitos autorais relativos à música Canteiros, parece a muitos ter servido para reafirmar seu prestígio. O show de lançamento de seu novo LP, Beleza, lotou o Teatro Carlos Gomes nas duas primeiras semanas de novembro, apesar da pouca divulgação. Pouco antes, em Belo Horizonte, cerca de 60 mil pessoas se comprimiam no Parque Municipal para o show que Fagner faria. Faria, porque no segundo número, o palco foi invadido pelos mais afoitos e ele não pode cantar.
- Foi a maior consagração que eu tive. Estou recebendo uma resposta violenta do público e tenho que retribuir isso com muita arte e emoção. O meu saldo na música brasileira é uma das coisas mais positivas que existem. Só as pessoas que não conhecem o valor do meu trabalho é que poderiam pensar o contrário.
Beleza (CBS) é o sexto LP de sua carreira e chega às lojas na próxima semana. É o disco que reúne o maior número de composições de sua autoria, cinco, das oito faixas. Abre com Noturno, de Graco e Caio Sílvio, jovens compositores cearenses, parentes do intérprete. Frenesi é de Fausto Nilo, Petrúcio Maia e Ferreirinha, e Ave Coração de Clodo e Zeca Bahia. Em memória de sua irmã, Fagner compôs Elizete e no mesmo período, início do ano, a música Quer Dizer. Com letras de três poetas, presenças constantes, alguns de seus "parceiros mais sinceros", as faixas Asas (Abel Silva), Beleza (Brandão) e Mulher (Capinam). Em clara alusão à entrevista em que Macalé se refere a Capinam como um poeta decadente, Fagner comenta:
- Ele é um dos letristas mais presentes na música brasileira. Capinam pode ficar 10 anos calado e jogar uma poesia que fale por todo este tempo em que muita gente ficou batendo boca.
O novo disco tende para simplicidade e clareza observadas nos arranjos (divididos com João Donato), na economia de instrumentos e nas diferentes colocações do canto de Fagner, entre a serenidade, predominantes no LP Manera Fru Fru Manera, e a tensão do Ave Noturna:
- A parte serena do meu canto está num espaço e o grito em outro. A razão é que se chega a um nível de maturidade em que se colocam todas estas coisas na hora certa. O meu caminho foi o de economizar onde já gastei muito. É como disse Marcílio Farias, em Brasília: deixei de batalhar em cima de um objeto e passei a lapidá-lo. Quem viver chorará, seu LP anterior, já vendeu quase 150 mil cópias, equivalente a um Disco de Ouro. O sucesso teria abrandado o conhecido temperamento agressivo do artista ?
- Falar por falar, eu nunca falei. A arte interessa pouco à estrutura que só dá apoio às coisas que alcançam um âmbito muito grande. Quem faz muito pode falar muito. Quem não faz nada pode falar pouco. Eu sempre fiz muito e sempre falei do que estava acontecendo comigo e com a minha classe. Sou uma pessoa totalmente integrada nela e no meu trabalho. Não faço outra coisa. Se é para estar tranquilo com isso, eu estou. Se é para brigar, é comigo mesmo.
Atuando em várias frentes, "polivalente e danado", Fagner encabeça um programa da TV Bandeirantes, é o diretor artístico do núcleo Epic da CBS, cuida da própria carreira e pôs este mês nas lojas o álbum Soro. O selo Epic é o núcleo de vanguarda da gravadora e sem contrato para exercer a direção artística do selo, Fagner atua ainda como intérprete, instrumentista e produtor nos discos dos novos nomes, além de "quebrador de pau" com os "testas-de ferro das companhias". O trabalho coletivo, ele assegura que é desgastante e passageiro, mas de maior importância. E explica por que:
- O selo Epic é uma resposta à marginalização em que vivem os artistas brasileiros, em cima das comparações de imediatismo das gravadoras. No Brasil, um artista novo não pode fazer um disco para faturar. Se ele não vender aquele disco, é logo marginalizado e não se leva em conta o valor da criatividade. Os artistas novos aqui são jogados às traças e eu consigo brigar por isso aí muito bem. O selo Epic é a verdadeira democracia.
Pertencem a este núcleo os artistas Zé Ramalho, Robertinho do Recife, Alceu Valença, Novos Baianos, Elba Ramalho, Therezinha de Jesus, Patativa do Assaré, Jorge Mautner, Thelma Soares (que relança depois de 14 anos um disco só com músicas de Nelson Cavaquinho) e muitos outros. O programa da Bandeirantes, que começou a ser gravado, não tem nome ou data de estréia definidos. Só irá ao ar, segundo o cantor, se satisfizer inteiramente. O álbum Soro reúne trabalhos de vários setores artísticos das mais diversas partes do país. Dentro dele, um disco e uma revista em 19 lâminas impressas na frente e no verso, entre textos, poemas, fotos, desenhos, partituras, etc. O material foi recolhido entre amigos em Fortaleza ou pelo Correio. A primeira resposta a chegar foi de Ferreira Gullar, que remeteu o poema inédito Primeiros Anos. As gravações foram feitas no Ceará e no estúdio de oito canais da CBS, uma produção caseira. Para a revista, foram selecionados trabalhos de Aderbal Jr., Capinam, Abel Silva, lena Trindade, Pedro Soler, Mino, gentil, Cafi e outros. A direção artística é de Fagner e Fausto Nilo colabora na produção. O disco contém outro poema inédito (Canção de Crioulos), de Abel Silva, na voz do autor, tal como o de Gullar. Patativa do Assaré interpreta Vida Sertaneja e, dedicada a ele, na voz de Fagner, a música Passarim do Assaré (de Fagner e Fausto Nilo). Pedro Soler, violonista flamenco, executa Peteneras, Geraldinho Azevedo gravou a faixa To Bach and Powell (de sua autoria) e Belchior canta com Fagner a faixa Aguapé, uma antiga composição sua. Ainda com instrumental, Estrela Ferrada (Cirino), Quatro Prantos e Choro Acadêmico (Nonato Luis). Para Núbia Lafayette e cantando ao lado dela, Fausto Nilo compôs Coração Condenado com Stellio Vale e Graco.
- Está aí um objeto cultural que há muito não se tem no Brasil - prossegue Fagner. - É uma coisa espontânea que destrói a maioria destes "objetos culturais"que são verdadeiras coisas programadas. Soro é Orós de trás pra frente, sim, mas é mais para injetar alguma coisa na atual leucemia da cultura brasileira.
O show de lançamento de Soro está previsto para segunda feira no Teatro Carlos Gomes às 21 horas com a participação de vários artistas.