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Fonte: Revista de Domingo
do Jornal do Brasil
Data: 17/06/1979
Repórter/Jornalista: Susana Schild
Título da matéria: "Se Caetano quiser uma carona no
meu sucesso, que venha. Eu o amo de coração."
Ele chega para a entrevista andando devagar, a tradicional boina, sempre disputada pelas fãs nos shows, de lado, a magreza acentuada pela camiseta velha, a calça idem, a barba por fazer. Uma displicência no andar e no falar incompatível com a forma rústica e agressiva de cantar, com a voz estridente, quase grito. Um à vontade aparente que contrasta com sua trajetória de acertos profissionais mais numerosos do que seus desacertos de atitude em sete anos de carreira. Hoje, porém, há a certeza de 100 mil discos vendidos (Quem viver, chorará) e a compreensão de um público sempre crescente. A cabeça mais lúcida para enfrentar os problemas. Isso porque este cearense tem como lema dar um boi para não entrar em briga e uma boiada para não sair. E haja boi, uma vez que não faltou a Fagner - ou ele não deixou passar - oportunidade de brigar. E continua. A briga maior, vaga, indefinida, abrangente, resumida na palavra sistema, mil vezes repetida em pouco mais de uma hora. Acre-doce, Fagner alterna posições satisfeitas, confortáveis com outras de quem se prepara para uma briga pela frente.
- A vida anda do mesmo jeito, muita luta, quanto mais a gente faz, mais tem para fazer. Mas estou relax, tranquilo, as coisas tem acontecido.
Para Fagner compositor, a época é das mais férteis, embora se diga mais preocupado em mostrar o trabalho de outras pessoas. Curte cantar, dividir o trabalho emprestando a voz a composições alheias. E dessa troca de energia, o saldo só tem sido positivo, para ambas as partes. As suas composições, de qualquer forma, acumulam-se, esperando uma hora exata para serem lançadas. Ele diz que está amadurecendo, e que no seu último disco essa transformação é mais nítida, mais clara. Vive uma procura coerente, simples, ligado na possibilidade de ampliar. Impossível porém obter afirmações mais precisas do artista. Que tenta se explicar melhor, generalizando:
- Não me sinto mais marginalizado pelo sistema.
Marginalização, que ele sentia, mas não através de um bloqueio de acesso às rádios, que poderiam não tocar suas músicas, ou nas gravadoras.
- O sistema marginaliza quando não entende. Nunca fui ignorado, mas só agora estourei. Os outros discos não aconteceram porque eu tinha que me preparar para assumir as coisas, enfrentar as exigências do sucesso.
Rememora o lançamento de seus discos. Manera Frufru, para muitos o mais importante, com Mucuripe, primeiras parcerias com Capinam. Ronaldo Bastos.
-Este poderia ter estourado, mas eu teria que assumir o sistema, e não tinha condições de ser ídolo. Estava muito verde, ia me estrepar fácil, fácil. Foi então que rompi com a máquina, não aceitei o jogo.
Marginalizado pelas fábricas, Fagner gravou Ave Noturna, que considera uma ampliação do seu lado artístico apesar de tecnicamente falho. Com o terceiro, Raimundo Fagner, o cantor começou a se preparar para se por mais uma vez à prova. Seguiram-se, entre outras coisas, o trabalho com Hermeto Paschoal e Orós, diferente do que fazia mas não do que queria, e Quem Viver Chorará "que já estourou e vai estourar mais ainda", profetiza o autor. Quanto a sentir-se um ídolo, explica:
- No fundo, esse negócio de ídolo é uma piada. Para mim, ser ídolo é estar a par das coisas, por dentro das mumunhas, das matreragens. Hoje, tenho muita experiência na bagagem, tenho cabeça para tirar de letra as questões mais simples. Viajei muito, recebo a força do público que é quem mais me implusiona, me dá força. Assumir o sucesso é apenas ter consciência de todas as questões, que podem ser fáceis ou difíceis, dependendo da experiência para decifrá-las.
O jeito descontraído do início da conversa está mudando. A agressividade é mais vicível, uma raiva que nunca pode ser suficientemente extravasada: - O sistema se abriu para mim, mas isso não quer dizer que faço o jogo dele, mas porque estou vendendo. O povo, que me entende, forçou a barra. E já existem, poucas, é verdade, pessoas novas nas rádios e televisões que dão força. Mas não estou de bem com o sistema. Ele é que está de bem comigo. Continuo a fazer o que quero.
Compor, cantar, tocar, participar de gravações. Faz tudo isso e ainda produz discos, desde 72, começando na Philips e passando para a CBS, em 1977, com a mesma filosofia:
- Tenho total liberdade de trabalho na gravadora e meu objetivo é apresentar gente nova como Amelinha ou Robertinho do Recife, Ricardo Bezerra, Mirabeau, ou regravar artistas mal gravados. Além disso, sugeri outros produtores para lançar outros nomes que encontram espaço na companhia. A idéia inicial do trabalho se ampliou, e estou armando uma estrutura para esse trabalho continuar mesmo quando eu sair.
Fagner faz questão de dizer que, como produtor, não recebe um tostão da CBS, nem de porcentagem, ganha apenas como músico quando entra no estúdio para participar de uma gravação.
- É uma necessidade de passar minha experiêncoa. Custei a entender como é importante para algumas pessoas manter outras no anonimato, enganando. Eu jogo aberto. Protejo quem eu quero. E, quem não quero proteger, dou para outros protegerem. Não faço o jogo que fizeram comigo. Que amargou.
Enquantio ataca em várias frentes, Fagner prepara seu próximo LP, Beleza, que deverá comecar a gravar em julho. - Este disco vai definir o resto da cacetada.
A agressividade é óbvia, e justificada assim pelo artista:
- Tenho muito para dar, não ocupo mais hoje apenas a varanda da casa, mas minha música entrou, adquiriu um espaço. Mas falo por muita gente, pelos talentos promissores impedidos de falar, de se expressarem, do bloqueio da criação de um monte de gente. As pessoas só falam de meia-dúzia, sempre as mesmas. Mas agora é um novo álbum, e vão mudar as figurinhas.
Fagner se vê como um artista que lutou com dificuldades enormes, desacreditado sobretudo pelas pessoas que sabiam do seu valor, que tinham a bola na mão e se omitiam, desestimulavam. Nega, no entanto, desejo de vingança.
- Tinha necessidade de passar por tudo, enfrentar tudo. Esse é o meu lance. Nunca vou me contentar, quero mais. E sou do tipo que dá um boi para não entrar e uma boiada para não sair.
O que ele quer é simples: mudar tudo, começando por si mesmo, ampliando para mudar as regras do jogo. É no seu público que sente a maior força e apoio. Hoje, um público totalmente indiscriminado, que começou com universitários, atraindo a garotada, ligado ainda a pessoas mais velhas. E todo esse apoio representa para Fagner mais responsabilidade. - Achei natural, e até pouco, vender 100 mil cópias de um disco. Vou vender muito mais, porque lutei e trabalhei muito, meu mundo é muito amplo e não cabe apenas em cópias de disco. Já rasguei muito a garganta, me emocionando com coisas novas, e me emociona mais ainda ser uma realidade, uma pessoa, ter eco, ser um eco de tanta gente. Isso me sensibiliza, não o lado material, nunca tive nada e já tenho o bastante.
Sensível ainda à abertura oficial, Fagner considera maior a aoportunidade de diálogo. Com ressalvas.
- Eu me abro a qualquer custo, porque sei que as coisas não caem do céu. Mas existe uma abertura e uma ditadura. O diálogo está aberto, e acho que prevalecerão os interesses gerais. Os particulares vão dançar.
Considera grandes momentos aqueles que permitem cantar para milhares de pessoas, como em manifestações de apoio a movimentos sindicais ocorridas recentemente, por exemplo.
- Esse é o grande momento dos artistas se juntarem a todas as classes para conciliar idéias, sermos úteis. Chegou a hora do artista arregaçar a manga, sair da toca. Porque ele vive do povo, e se não fixer isso, não adianta nada. Cantar é bom de qualuer maneira, mas dessa forma o peso é muito maior.
Quanto à MPB, acha que ela "está em casa, pintando muita gente e também chegando a hora do preto no branco, de decidir quem é quem". Apesar de brigas e rancores, Fagner admite que está calmo, sem necessidade de correr pelo mundo e se apresentar.
- O som que sai da minha garganta é diferente de tudo que está por aí, e me sinto participando, contribuindo para uma mudança geral. Só o tempo, porém, vai dizer de que maneira as coisas mudaram. O meu canto tem muitas referências no passado e no presente, uma necessidade mais angustiada, minha e de muita gente.
Na árdua trajetória, as raízes cearenses continuam a se fazer sentir, admite.
- Estou ligado ao Ceará, ao Nordeste, que tem a ver comigo e com o Brasil. Aliás, o público cearense é o mais exigente do Brasil. Agora eles me aplaudem, mas no começo nem batiam palmas, encostavam unha na unha e olhe lá. O contato com o Nordeste é sempre rico, e foi em Fortaleza que cantei para o maior público da minha vida, 30 mil pessoas no Ginásio Paulo Sarazade, que esperou uma hora e meia para me ver. Foi a glória.
Distante de um tempo em que admite "ter falado muita maluquice perdido em fantasias", Fagner diz ter hoje discernimento para não se envolver em brigas pequenas, nas quais se insere, por exemplo, a longa "troca de elogios" com Caetano Veloso. Ele diz que quer terminar a briga, não falar mais no assunto e, para encerrá-lo, declara:
- Essa briga é antiga, provocada por mim, reconheço, mas que ele vem curtindo muito. Hoje não sei mais dele, ele é quem sabe de mim. Se ele quiser uma carona no meu sucesso, que venha, porque num ponto ele está certo: amo-o, de coração. Não estou a fim de brigar, só por causas muito importantes. Quanto a Caetano, ele é um dos maiores artistas do Brasil.