Fonte: Revista de Domingo do Jornal do Brasil
Data: 1977
Título da matéria: Está jóia, Campeão

Raimundo Fagner é um fenômeno do qual ainda não se pode marcar os limites. Irreverente, foi expulso de 15 colégios; resoluto, rodou por cinco gravadoras em cinco anos de trabalho; inesperado, vem gravando discos com intervalos progressivamente menores, o último lançado em abril, o próximo a ser distribuído em julho. Em São Paulo, no quarto de hotel que está dividindo com Hermeto Paschoal, está no ar a presença das conversas entre os dois sobre cada um dos detalhes da mixagem que estão fazendo. Orós, o novo disco (e cidade natal), é para Fagner, o primeiro-a descoberta do trabalho bem feito. De repente, Fagner pisca o olho e conta a loucura que foi a viagem a Paris. O último tostão na passagem, arriscou tudo e foi. Sentiu frio, medo e também o orgulho de 2 mil pessoas aplaudindo no Olympia. Fala da amizade com Nara e Cacá Diegues, da admiração por Roberto Carlos (que gravou Mucuripe), do disco gravado com Ney Matogrosso, da descoberta com Hermeto Paschoal. De noite, no estúdio, Fagner e Hermeto ficam silenciosos tirando e pondo na fita cada um dos instrumentos que cantam Cebola Cortada. O trabalho continua artesanal, até que de um canto da sala Hermeto dá um pulo e grita: "Tá jóia, Campeão".

A platéia do Teatro Tereza Rachel, no Rio, está superlotada. O público começa a bater palmas, impaciente, quando surge no palco a figura de Raimundo Fagner. As arquibancadas do teatro, de madeira, rangem e nada mais se ouve além da voz rachada de Fagner acompanhado por cada uma das pessoas presentes. Enquanto canta sobre o coração que não entende o compasso do pensamento, o público está eufórico. São todos jovens, adolescentes que há muito tempo não vibram tanto em teatro algum do Brasil . Os sintomas são muitos e os mesmos: está nascendo uma estrela.

Fagner, até que ponto você canta aquilo que sabe que se espera de você ?

- Eu não estou querendo saber dessa conversa. Isso é papo de otário que está assustado comigo e com o que tenho feito. Dizem que sou astuto de carreira. E se disser que sou ? E daí ? O fato é que estou com o povo na minha mão e o povo sabe quem é quem. Se os meios de comunicação não sabem quem sou eu, não importa. Não quero ser promovido por altas máquinas: isso, sim, é que pode acabar comigo.

Esse tom de Fagner vai nas suas músicas, na sua vida. Um desafio de querer fazer tudo conforme pensa. E se não der certo, ele diz orgulhoso, "volto para Orós, fico por lá, e pronto." O meu trabalho é uma coisa viva, está ligado ao sentimento do povo, é poesia, é amor. Não uso os artifícios criados por empresários e máquinas para fazer ídolos ou mitos. Sei que sou um privilegiado na medida em que estou sendo reconhecido sem ser através desses meios. Eu quero o rádio, a TV, mas para isso não abro a mão. Eu não preciso me queimar, estou começando.

Fagner chegou ao Rio em 72, quando gravou seu primeiro disco Fru Fru Manera esquecido nas prateleiras durante muito tempo, até que o segundo LP, Ave Noturna em 76, foi descoberto. A partir daí começou a bola de neve na venda de discos. Raimundo Fagner de abril desse ano e Orós a sair em julho.

O que é Pessoal do Ceará ?

- Essa história é morta para mim desde o começo, quando gravaram um disco com esse nome. Sempre fui contra, não há necessidade. Cada um tem uma formação, pensa diferente dos outros. Isso é papo comercial que, em vez de fazer três albuns, junta tudo num só.

Você ganhou muito dinheiro ?

- Nunca tive uma boa relação com dinheiro. Nasci pobre e hoje não quero muito dinheiro. Só um pouquinho para poder ter as coisas com gosto. Já ganhei muito dinheiro e hoje não tenho nada de novo. E se a máquina me quiser porque estou dando dinheiro, tem que me dar estrutura, porque não quero me queimar por dinheiro. E se não derem, não tem nada: acabo de gravar Orós e volto pra lá.

Este ano ainda Fagner vai os Estados Unidos gravar um disco com Hermeto. Ele sente vontade de mostrar um trabalho que se acumulou durante o tempo em que não podia gravar. Não se preocupa em absoluto, se está lançando um disco atrás do outro:

- Estou querendo mostar o que tenho e não é pouco. Meu trabalho não é esconder o ouro.