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Fonte : Jornal Rolling Stone
Data: 24/10/1972
Repórter/Jornalista: Gilda Horta
Título da matéria: "Polêmica"
Fagner desabafa para a ROLLING STONE o seu descontentamento com o festival (Festival Internacional da Canção -FIC de 1972):
" Eu fui uma pessoa realmente enganada com esse festival. Fui tão enganado que eu subi no palco para cantar só de violão a minha música confiando no júri e no público que estavam lá. Quer dizer, o festival foi aberto com vaias. O pessoal estava mesmo era a fim de ver Fio Maravilha, sabe ? Estava lá o pessoal do Flamengo, mas eu não sou contra o Flamengo. Acho que o pessoal devia ouvir todo mundo e não ir disposto a vaiar todo mundo. As pessoas deviam ter mais consciência nisso. Agora, eu digo que fui enganado pô, mas eu não fiquei chateado não, porque o festival independe da minha carreira, sabe ? Nunca pensei em ganhar e nem ser desclassificado pelo nível das músicas apresentadas, como também não acreditei que o júri fosse atribuir notas que classificaram determinadas músicas. Não sou contra o que o júri fez, aquele júri que selecionou as músicas para o festival e sim aquele júri que estava lá. Eu não entendi ver determinadas músicas classificadas, sabe ? É uma tristeza ver isso porque eu realmente me senti enganado. Quer dizer, eu sou um cara, realmente, eu sou novo, e se eu entrei enganado nesse, eu não vou me enganar nunca mais em festival. Eu vou entrar em festival que a gente chega lá e canta com todo mundo e que não vai ter colocação pra ninguém sofrer essa decepção. A minha música foi desclassificada, mas, no dia seguinte, ela já estava tocando no rádio. A mensagem que eu quis dar no festival acabei dando no rádio. Fiquei com pena do júri, de algumas músicas boas que entraram e eram poucas, mas com pena do festival, de algumas pessoas que eu não vou citar nomes e o que eu quero é passar essa pena, porque eu não estou nem um pouco com raiva. Quanto à música da Cabeça sou a favor da experiência do Valter Franco, gostei muito. Eu nãi sei se é uma experiência para o festival. Agora, o que eu senti, era que o júri estava realmente com medo de não ser intelectual, sabe ? A preocupação que as pessoas tem de ser intelectuais hoje em dia é incrível. As pessoas ficam caladas para serem intelectuais, falam demais para serem intelectuais, enfim, ser intelectual é uma tristeza. Olha, é incrível, porque para ser intelectual a pessoa tem que manter distância. A partir do momento em que você se encosta perto de uma pessoas de quem você era fã e que achava o máximo, essa pessoa te dá liberdade de ser igual a voc6e, você vai achar essa pessoa um lixo. Você exige que essa pessoa seja intelectual, sabe ? Por isso eu sou mais pelo contato. Eu estou sabendo realmente das coisas que estou tentando fazer. Eu não larguei a faculdade à toa. Eu estou a fim de mostrar um trabalho que fiz de mais de 100 músicas que eu trouxe do Ceará e posso passar dois anos aqui sem fazer p... nenhuma e voltar novamente para o Ceará. Aqui não me incentiva fazer música não. O que me incentiva é que me dá muita aporrinhação, é só isso mesmo."