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ENTREVISTA COM SERGIO NATUREZA Um dos grandes letristas do
país, Sérgio Natureza tem mais de 200 músicas de sua autoria gravadas por
alguns dos maiores nomes de nossa música. Poeta, tem livros de poesia
lançados, produtor cultural, roteirista de show, enfim um homem da
cultura. Recentemente fez a ponte entre Fagner e Zeca Baleiro, celebrando
uma amizade e um encontro musical renovador e definitivo na carreira de
Fagner.
A página dos amigos se sente honrada em poder entrevistar Sérgio
Natureza.
1)Sérgio, agradecemos imensamente por você dedicar algum tempo em
nos responder. A velha discussão poeta x letrista. Como você define sua
atividade principal ?
Eu sou, basicamente, um letrista - ou, conforme denominação menos
corrente, mas que penso mais precisa, "poeta da canção". Nas minhas mais
de 250 autorias gravadas está grande parte da minha lavra poética. Como
poeta impresso, tenho um livro lançado em 1998, com o título de "O
surfista no dilúvio" - mesmo nele, estão inclusas muitas letras e textos
afeitos a melodias, tanto que a quase totalidade deles já foi musicada;
tenho também participações em antologias como "Ebulição da escrivatura"
(Editora Civilização Brasileira / 1978), assinando Sergio Varela (meu nome
de batismo), na "Antologia da Nova Poesia Brasileira" (Olga Savary /
Editora Hipocampo / RioArte - 1992) e uma tríade de poemas - "Caricas:
cenas cariocas" - em publicação da RioArte enfocando os premiados no
Concurso Stanislaw (1994). Afora isto, tenho poemas publicados em jornais,
revistas e outras publicações em todo o Brasil e no exterior Quanto à
diferença entre poeta e letrista, o argumento mais comum é que a maioria
dos textos de letristas não resiste à página em branco - realmente muitos
deles não funcionam sem o veículo musical que os apóia; entretanto, alguns
desses textos têm grande força poética e podem estar, sem problemas e com
relevo em publicações impressas. Em contrapartida, temos textos de grandes
poetas tais como Ferreira Gullar, Cecília Meireles, Drummond e João Cabral
de Mello Neto - que, inclusive, sempre declarou não gostar de música -
dentre outros, musicados com muita propriedade, beleza e harmonia.
Outro aspecto que costuma diferenciar poetas e letristas (aliás, também
poetas, no seu viés), é a concisão/síntese obrigatória para o letrista, em
se tratando de caber na frase melódica, coisa que o poeta-literato não tem
como premissa.
Verdade é que existe uma diferença de sotaques, de abordagem temática e
formal, no mais das vezes - porém, se há diferenças, também há
equivalências no tônus poético de um bom letrista ou de um bom poeta.
Mesmo quando um poema não é musicado, tem sua musicalidade intrínseca,
pode ser uma sinfonia - com palavras impressas em lugar de notas - e um
orador/declamador, atuando como um cantor sem música de fundo, entoando
poesias.
Na minha opinião, poetas-literatos e poetas da canção são variáveis do
mesmo ofício. Música e Poesia são artes afins.
2)Entre todos os seus parceiros, o mais frequente é Tunai. Como
surgiu essa parceria que deu tão certo e rendeu tantas músicas lindas como
As aparências enganam e Frisson ,para citar apenas duas ?
Minha parceria com o Tunai surgiu por volta de 1977, quando fomos
apresentados pelo irmão dele, o compositor e intérprete João Bosco. A
princípio, o Tunai me mandava as melodias de Belo Horizonte - onde ele
ainda morava na época, e eu colocava as letras aqui no Rio - depois
comecei a ir, vez por outra, a B.H. para compormos - " As aparências
enganam, por exemplo, foi composta na capital mineira. Posteriormente o
Tunai veio morar no Rio (onde mora até hoje) e onde continuamos a compor -
"Frisson" já é uma típica composição da "fase carioca" da parceria.
Ainda entre 1977/1978, eu e Tunai fomos apresentados, pelo mesmo João
Bosco, à Elis Regina, no Teatro Casa Grande. Ficou então marcado de irmos
mostrar a ela nossas primeiras (e ainda não muitas) composições, dentre as
quais ela pinçou "As aparências enganam" - que gravou primeiramente no LP
"Essa mulher" e mais tarde no LP "Saudades do Brasil". Mais adiante, ela
registrou um samba nosso de nome "Agora tá" no disco gravado ao vivo no
show dela no Festival de Montreaux (1979) e no LP "Saudades do Brasil".
Uma outra parceria nossa, intitulada "Lembre-se" foi cantada por Elis no
show "Essa mulher" no Anhembi, só sendo resgatada muitos anos após sua
morte, num CD editado a partir de gravações inéditas, ao vivo, do show,
pelo irmão da artista.
Para a dupla, o aval e a gravação das nossas canções por Elis foi um
passaporte para ser aceito e reconhecido no meio musical, pelo público e
pela crítica. A partir dela, muitos intérpretes passaram a nos procurar
pedindo músicas.
Tunai foi e ainda é o meu parceiro mais constante, compús com ele parte
substancial, alguns dos momentos mais marcantes de minha obra
lítero-musical.
3)Elis Regina foi sua grande intérprete?
Existem grandes intérpretes na M.P.B. , mas Elis, afora o mito, foi -
e ainda é - uma intérprete inigualável, uma cantora que conseguiu unir uma
técnica excepcional à emoção pura. Além de nos apresentar e nos avalizar,
foi nossa amiga pessoal - chegamos a passar 10 dias na casa dela e do
Cesar (Camargo Mariano) na Cantareira, em São Paulo - na época, Maria Rita
e Pedro eram criancinhas e João Marcelo tinha uns sete anos. O Tunai
sempre acompanhava os ensaios do Cesar com o grupo, eu conversava muito
com ela, acompanhava seu cotidiano de dona de casa. Pouco depois ela me
convidou para ser seu assessor de imprensa particular - cheguei a
trabalhar todo o ano de 1979 nessa função - o que me abriu muitas portas
para contatos com pessoas de imprensa que, na época repórteres, hoje
editoram publicações importantes. Posso dizer que Elis, de maneira
abrangente, foi minha (e também do Tunai) verdadeira madrinha, além da
pessoa/artista única e inesquecível.
Quanto a outros grandes intérpretes, muitos também me gravaram e merecem
minha profunda admiração e gratidão - para não ser traído pelo
esquecimento / pela não citação, já que são muitos, prefiro não listar
nomes, mas posso dizer que, felizmente, foram poucos os grandes que ainda
não gravaram canções de minha autoria.
4)Uma das coisas que mais impressiona é a quantidade de músicos e
cantores/cantoras talentosos que o Brasil tem. Como diretor do projeto
Novo Canto, que visava mostrar novos talentos, você pode provavelmente
constatar essa realidade. Fale-nos sobre isso.
O Brasil tem, felizmente, uma inesgotável fonte de talentos musicais.
O projeto Novo Canto, do qual sou diretor artístico desde o ano de 2000 -
com exceção de 2004 quando estive na função de diretor dos shows - não
tive, como das outras vezes, o papel de coordenador geral da parte
artística, feita em 2004 pela Bete Calligaris e o Marco Luna, da Arte com
trato – que decidiram o formato e a maior parte do elenco - trouxe a
público cerca de duas centenas de "novos talentos", alguns já com
carreiras individuais anteriores ao projeto, outros saídos do ineditismo,
mas todos alavancados pela participação no projeto - e alguns hoje já se
firmando como nomes de ponta da cena musical popular contemporânea em
nosso país.
É uma falácia dizer que não há renovação na M.P.B. - o que falta são
espaços e veículos para difundí-los.
5)Um dos seus grandes parceiros e amigos foi Sérgio Sampaio. Após 10
anos de sua morte, ele ainda não teve o reconhecimento que merece. O que
você pensa sobre isso ?
Sergio Sampaio foi meu parceiro em poucas composições e amigo de
muitos anos. Tive o prazer e o privilégio de conviver e compor com este
artista tão particular e instigante - aliás, fui o único parceiro que ele
gravou cantando e que também o acompanhou em diversas fases da vida, desde
seu sucesso até a proximidade de sua morte, há 10 anos.
Concordo que, passado esse tempo, ele ainda não teve o reconhecimento
devido de sua obra - talvez por ser um artista realmente popular, de
melodias fáceis e contagiantes, descompromissado estéticamente com o
modismo fortuito e a música cerebral, intuitivo e simples dentro da
complexidade temática expressa mais nas letras do que na harmonia de suas
composições, no seu auto-didatismo e na sua inteligência aguçada, crítica
e mordaz, muito também por ele não compactuar com esquemas de gravadoras
que o queriam como um fazedor de sucessos – mesmo que isto custasse a ele
um desvio de suas convicções artísticas, coisa que ele jamais aceitou.
Infelizmente, já é sabido o descaso e a falta de memória com relação aos
criadores fora da mídia em nosso país.
Que se faça menção especial ao trabalho biográfico de Rodrigo Moreira que
lançou o livro "Eu quero é botar meu bloco na rua" sobre a vida do artista
e que, desta maneira, trouxe marcante colaboração à sua memória.
Quanto a mim, batalhei muito para produzir e lançar o CD "Balaio de
Sampaio" (MZA /1998) - foram quatro anos de trabalho ininterrupto, sem
quase nenhum apoio e que, embora não tivesse atingido ainda a dimensão que
a obra dele merecia, foi importante para mostrar a outra face do trabalho
dele, com outros intérpretes (muito embora ele, em vida, tenha sido
gravado até por Maria Bethania), pessoas que sempre prezaram o trabalho
dele e o respeitavam como referência e/ou amigo e que se engajaram,
graciosamente, no projeto, emprestando suas vozes à causa: Zeca Baleiro,
Luiz Melodia, João Bosco, Chico César, João Nogueira, Lenine, Erasmo
Carlos, foram alguns deles. Acho que valeu para mostrar a força e a
atemporalidade da obra deste artista peculiar, um legítimo músico popular
brasileiro, compositor inspirado, cantor forte, pungente/pujente como
poucos, cuja bela voz continua inimitável.
6)Algum projeto especial para os 10 anos de desaparecimento dele ?
Um novo Balaio do Sampaio à vista ?
Um novo Balaio do Sampaio não está nos planos imediatos, talvez num
futuro ainda possa haver uma nova edição de releituras do trabalho dele,
mas não há planos concretos sobre isso.
Está sim, em fase de finalização, o CD póstumo "Cruel" - nome que o
próprio Sampaio havia dado, na época, ao disco que o traria de volta aos
estúdios e rádios, mas que, infelizmente não se concretizou pela morte
dele.
Trata-se de um CD com a voz original de Sergio Sampaio - tirada de
gravações , voz e violão, feitas em estúdio para apresentar o repertório à
gravadora que o produziria e lançaria o CD em 1994 (ano de sua morte).
Este trabalho foi resgatado por Angela Senra - mãe de João Sampaio, único
filho de Sergio - e por Zeca Baleiro que, num trabalho tanto minucioso
como carinhoso, começou a buscar outros registros, trabalhá-los,
remasterizá-los, colocar outros elementos / arranjos - tudo por conta
própria - estando perto de concluir o trabalho e realizando, desta
maneira, o sonho de Sampaio de ter um trabalho seu lançado em CD - já que
tudo o que tinha gravado era em vinil. Zeca Baleiro é talvez a pessoa que
mais venha mantendo acesa a chama do trabalho de Sergio Sampaio: gravou
"Tem que acontecer" (de Sampaio) para o Balaio, depois a incluiu em CD seu
de carreira, sempre a canta em seus shows - geralmente seguida de "Eu
quero botar meu bloco na rua", sucesso maior de Sampaio - trata-se, enfim,
de um cultor e fã confesso da obra do artista.
7)Fagner gravou duas músicas suas. Rubi Grená, sua parceria com
Nonato Luiz, no disco Retrato de 1995 e Sem Teto, sua e de Sérgio Castro
no disco de 2001. Conte-nos como foi seu primeiro encontro com Fagner.
Fagner gravou, além de "Rubi Grená" e "Sem teto", a canção "Azulejo"
(minha, dele e do Zeca Baleiro) no CD que uniu eles dois - Zeca e Fagner,
como sabido, a gravaram em duo. Meu primeiro contato pessoal com ele foi,
se não me engano, durante a viagem de uma grande comitiva de artistas para
um Encontro sobre direitos autorais em Araxá, M.G., nos anos 70 - quando
eu já o conhecia de nome, gostava dos seus trabalhos gravados, de suas
composições e interpretações muito pessoais, o via como um artista
particular, forte, carismático. Sempre tive com ele uma relação de amizade
pautada na admiração e respeito mútuos, muito embora nestes tantos anos
não tenhamos nos encontrado muitas vezes - e sim nos falado mais por
telefone - a partir de uma dessas conversas telefônicas recentes foi que
surgiu a idéia da aproximação dele com o Baleiro.
8)E o projeto do disco com Zeca Baleiro, você participou ativamente
dele ?
Bem, o Fagner me perguntou, por telefone, se eu conhecia o Zeca
Baleiro, me disse que gostava do trabalho dele, que gostaria de fazer
contato - eu respondi que não só o conhecia, como ele era meu amigo e
parceiro. Falei com o Zeca, que me disse ter o Fagner como uma de suas
referências, quando ainda no início de sua carreira (dele, Zeca) no
Maranhão. A bem da verdade, eu já havia pensado neste possível encontro,
mas foi o Fagner que me impulsionou a concretizá-lo. Marquei com o
Raimundo de encontrá-lo no show de lançamento do CD "Líricas", do Zeca, no
"Canecão". Fomos ambos, mas em horários diferentes, nos desencontramos,
acabamos nos sentando em mesas diferentes e ele, Fagner, saiu logo após o
fim do show, estava com amigos, teve de sair rápido. O encontro dos dois
acabou só acontecendo depois, numa ida do Zeca ao Ceará, passando a ter no
Fausto Nilo o elemento de ligação mais forte entre os dois, a partir de
então.
Nos rencontramos todos aqui no Rio, e foi muito bem rever o Fausto, estar
com o Zeca, o Fagner e os músicos, todos num mesmo time...vencedor,
felizmente, já que o CD e o show deram o maior pé.
9)Atualmente você está empenhado em um trabalho de re-organização da
Rádio Nacional AM. Quais são os seus projetos para revitalizar a radio ?
Eu atualmente estou trabalhando na Rádio Nacional do Rio de Janeiro
como cooordenador da programação musical, mas muitos programas têm seus
repertórios gerados pelo próprio apresentador, sob responsabilidade dos
mesmos, portanto não interfiro neles.
Na verdade, em dois horários específicos eu atuo na coordenação: no
programa "MPB Show", que vai ao ar de segunda a sexta-feira das 14:30 às
16:30 e também sábados e domingos à tarde - em horários que precedem as
transmissões esportivas, eu coordeno a programação - que é feita pela
Clarice Gonzaga, com total independência, mas sobre a qual conversamos
sempre e, certas vezes, eu repasso para ela as orientações da diretoria,
minhas opiniões, enfim, fazemos um trabalho conjunto. No programa
"Edificio A Noite", que vai ao ar de segunda a sexta-feira das 20 às 24
horas e domingos de 22 às 24 horas, aí sim eu faço integralmente a
programação musical - trata-se de um programa de variedades: música,
notícias, reportagens, todo comunicado pelo radialista/ locutor Jair
Lemos.
Também programo o "Sábado baile", criação minha, que vai ao ar sábados de
22 às 24 horas, só com músicas dançantes e o "Músicas que marcaram", que
vai ao ar aos domingos de 6 às 7 da manhã.
Afora isto, venho colaborando com idéias sobre programas e shows no
Auditório, tudo sob a coordenação geral do Cristiano Menezes, diretor da
Rádio.
10)Em um encontro recente que tivemos, você falou de um possível
disco com vários artistas interpretando canções de sua autoria. Uma
espécie de “song-book” seu. Conte-nos algo sobre esse projeto .
Há cerca de 10 anos resolvi começar uma série de releituras de autorias
minhas - com diversos parceiros - dentre eles Tunai, Paulinho da Viola,
Lenine, Guinga, Sergio Sampaio, Rosa Passos e nas vozes de diferentes
artistas - conhecidos ou novos -sem qualquer preocupação com o tempo que
isto demandaria, mas primando pela qualidade e coerência de ver/ouvir as
canções reinterpretadas por artistas que eu sentia como capazes de reler,
de forma tanto peculiar quanto instigante, músicas já gravadas e também
umas poucas inéditas. Neste meio tempo, muitos outros projetos foram
surgindo, se assomando e merecendo minha atenção/requerendo meu trabalho,
sendo então priorizados - mas, a despeito disso, continuei firme no
propósito de seguir regravando minhas autorias - estão cantando no CD,
dentre outros, Luiz Melodia, Zeca Baleiro, Lenine, Ná Ozzetti, Monica
Salmaso, Leny Andrade - e participam músicos como Cristóvao Bastos, Carlos
Malta, Lui Coimbra, Nicolas Krassik e Marcos Suzano. Há pouco tempo,
consegui reunir um número suficiente de (re)gravações que já propiciam um
lançamento. Fiz contato com um selo novo, ligado a uma instituição e tudo
leva a crer que será lançado em breve.
O que norteou todo o trabalho foi que os participantes tivessem comigo uma
relação de amizade/afeto – nem eu convidei nem ninguém participou do
projeto por qualquer outro interesse. Claro que ficou faltando o Tunai,
mas não por outra razão senão desencontros de agenda. Ficou faltando muita
gente amiga que se prontificou a participar. O Fagner, claro que também
foi cogitado – nós até conversamos a respeito por telefone, mas as muitas
viagens, os compromissos dele não o deixaram participar deste primeiro
volume de releituras de minhas autorias. No segundo – que espero iniciar
logo depois do lançamento do primeiro, ele e mais outros amigos certamente
estarão.
11)Dos artistas mais novos, quem o comove como intérprete/compositor
?
É delicado falar em nomes, sempre falta alguém que, não sendo citado,
fica magoado, sente-se discriminado / não prestigiado mas, para ser
rigorosamente justo, teria de fazer uma relação imensa para contemplar a
todos e, ainda assim, não seria completamente fechada a lista, na medida
em que, afora um eventual lapso, a cada dia surgem novos talentos,
ratificando o enorme potencial criativo/renovatório nas artes brasileiras
- no caso em particular, com relação à música popular tão rica em nosso
país. Muita gente me comove neste cenário, citar só alguns não
contemplaria a tantos que merecem .
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