ENTREVISTA COM RICARDO BEZERRA
Por Klaudia Alvarez
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Ricardo Bezerra nos anos 70 |
A
Página dos Amigos de Fagner mais uma vez realiza uma entrevista com um
personagem importante e atuante na cena musical/cultural, além de muito
ligado à carreira de Fagner. Dessa vez vamos conversar com o arquiteto,
professor universitário e compositor cearense RICARDO BEZERRA,
autor, entre outras canções, de Cavalo-ferro, uma das mais marcantes que
Fagner já gravou.
As
perguntas foram elaboradas por Ricardo Piolla, Geraldo Medeiros Jr. e
Klaudia Alvarez.
- Ricardo, é um grande prazer para nós, da Página dos Amigos, conversar
com você. Queríamos começar pedindo que você nos conte como conheceu
Fagner no final dos anos 60 e como você o levou para frequentar o Bar do
Anísio, reduto da intelectualidade cearense da época.
RB -
Conheci Fagner logo após ele ter ganho o festival da Música Cearense,
promovido pelo Jornal O Povo, em 1968, com a música “Nada sou”, em
parceria com o Marcus Francisco. Foi nos corredores da Rádio Iracema,
onde eu estava trabalhando, representando o Diretório dos Estudantes da
Escola de Arquitetura da UFC, na organização de outro festival: o Festival
de Música Aqui no Canto. Nesse primeiro encontro já nasceu uma grande
amizade. Amizade à primeira vista. Daí fizemos planos de compor em
parceria, o que começamos a fazer logo nos dias seguintes. Nessa estória
do Bar do Anísio, realmente fui eu quem teve a honra de apresentar o
Fagner para a turma da universidade. O Bar do Anísio era um dos lugares
que frequentávamos. (Nota da Página dos Amigos: O Bar do Anísio se
localizava na Av. Beira Mar, na Praia de Mucuripe. Hoje tem um edífício
no local onde ele ficava). Por conta de nossa amizade e pelo fato da
Marta, irmã dele, trabalhar na Escola de Arquitetura, ele passou a ir
muito lá também. A Escola era o local de maior efervescência cultural da
cidade e, portanto, muitos artistas da cidade estavam sempre por lá. Era
a Escola de dia e o Aníso de noite e madrugada adentro.
- Em 1967 você começou a participar dos festivais de música realizados em
Fortaleza. Como se deu seu envolvimento com a música ?
RB -
Quando nasci, para falar a verdade. Em casa, minha mãe tinha estudado
piano durante oito anos, minhas irmãs estudavam piano, meu pai era um
amante da música clássica ( no almoço e no jantar era sagrado se ouvir
esse tipo de música e eu era o encarregado de colocar os discos nessas
horas). Estudei piano dos 7 aos 8 anos de idade e minha mãe pensava que
eu poderia me tornar um concertista de música erudita. Felizmente, me
enfadei dos exercícios maçantes e fiquei só tocando de ouvido. Procurava
tocar as músicas do rádio, fora aquelas besteiras tipo “O Bife”. Quando
estava na adolescência, minha irmã resolveu estudar violão com uma prima
nossa, eu fui na onda e comecei a praticar as músicas do caderno dela.
Daí abandonei o piano e fiquei no violão, instrumento que foi o meu meio
musical até depois de casado e com filhos. Apesar de nunca ter abandonado
o piano totalmente, quando estava fazendo meu doutorado, resolvi comprar
um teclado (tipo sintetizador) e já há algum tempo voltei para as teclas,
onde me sinto mais à vontade.
- No final dos anos 60 você chegou a trabalhar na produção dos programas
de TV “Gente que a gente gosta” e “Porque hoje é sábado”, veiculados em
Fortaleza onde Belchior e Fagner se apresentavam. Fale-nos sobre isso.
RB -
Era muito gostoso trabalhar naqueles programas. Uma pessoa que merece ser
lembrada pelo excelente caráter que sempre demonstrou, é o Gonzaga
Vasconcelos (que depois foi trabalhar na TV Educativa do Rio). Ele era o
apresentador e produtor geral desses programas. Ele foi a pessoa que mais
“deu corda” para a moçada se mandar pro tal do “Sul Maravilha”. Era,
basicamente, a nossa patota ( é o novo...)que se apresentava ali.
Normalmente sempre cantava junto com o Fagner. Na verdade, naquela época
de rebeldia, a gente mais gritava que cantava. Haja garganta... Tem um
monte de outras pessoas, além do Belchior e Fagner que fizeram parte
daquela estória e que eu gostaria de citar: o Ribamar Vaz (estudante de
Medicina), o Jorge Melo (hoje músico em São Paulo), o Cirino (grande
violão, hoje morando em Fortaleza), o Rodger e a Téti, o Ednardo... e
outros que agora não lembro. Naqueles tempos, o Fagner e eu cantávamos
nossas parcerias: Cavalo-ferro, Manera Fru Fru Manera e a do Astronauta
(cá prá nos, uma cópia mal feita daquela música dos Mutantes...). A
verdade é que éramos todos uns ilustres desconhecidos, um bando de
frangotes metidos a artistas, e o público (os programas eram de auditório,
na TV Ceará) não dava a menor bola prá gente. Parecia que entrávamos,
cantávamos e saíamos do palco praticamente sem sermos notados. O público
queria mesmo era ver os cantores tradicionais da cidade, entre os quais se
destacava a Ayla Maria.
- Em 1978 você lançou o LP “Maraponga”, um disco excelente, onde além de
mostrar seu lado de compositor, você provou que sabe cantar. Fale-nos
sobre esse trabalho e o que ele representa, olhando com os olhos de hoje.
RB -
Realmente, tenho que reconhecer que o disco “Maraponga” é excelente. Por
outro lado, tenho que reconhecer também que esse mérito se deve muito
pouco a mim. Qual disco nao seria excelente com um time daqueles ? Uma
verdadeira seleção, encabeçada pelo mago Hermeto Paschoal e tendo como
titulares Nivaldo Ornelas, Jacques Morelembaum, Mauro Senise, Sivuca,
Itiberê e Robertinho de Recife, somados às vozes de Raimundo Fagner e
Amelinha. E, de fato, o grande mérito é do produtor: Fagner foi quem
arregimentou todo esse pessoal.
Com
relação a essa estória que sou um bom cantor, é melhor que você reformule
essa idéia. Agradeço a referência, mas isso é uma total inverdade. Pra
falar a verdade nem sequer músico me considero. (Nota de Klaudia Alvarez:
Continuo achando que Ricardo tem uma voz marcante e muito agradável de se
ouvir) Minha habilidade nos teclados é minimamente suficiente para eu
compor minhas melodias e pronto. Prova disso é que no disco que gravei em
2002, totalmente instrumental, eu não toco uma nota sequer. Deixei a
execução para os verdadeiros músicos, no caso, excelente músicos entre os
quais posso citar os arranjadores (geniais) Adelson Viana, Cristiano Pinho
e Ricardo Bacelar, e ainda os (também geniais) Carlinhos Ferreira, Marcio
Rezende, Heriberto Porto, Luizinho Duarte, Ítalo Almeida e a participação
especialíssima de Mingo Araújo.
- Você foi um dos primeiros parceiros do início da carreira de Fagner,
depois a produção ficou mais rara. Por que você não voltou a compor com
ele ?
RB -
Depois que eu percebi que ser artista popular não era minha praia, fui
cuidar de terminar minha faculdade. Logo depois disso me casei com a
jornalista Bete Dias, com quem sou ( graças a Deus, muito bem) casado há
quase 33 anos e fui morar em Recife (ficamos lá quase um ano). Nessa
época ainda tive alguma atividade musical. O Alceu Valença ia lá em casa
vez por outra, ficamos amigos do Tiago Amorim que é um grande promotor
cultural em Olinda e a nossa turma era quente. Além dos artistas e
intelectuais joves, entre os quais se destacavam o Ivan Maurício, o Cavani
Rosas, além do Tiago. Tínhamos uma turma muito boa de amigos jornalistas:
Ricardo Noblat, Ricardo Leitão, Tadeu Lubambo entre outros. Olinda era o
point. Lá era onde tudo acontecia. O Tiago organizou um grande show
chamado Sete Cantos do Norte, onde participaram Alceu, Zé Ramalho, Ave
Sangria (uma banda muito legal), Robertinho de Recife, Fagner, um outro
que esqueço o nome e eu lá no meio... Depois disso, quando voltei para
Fortaleza, fiz um show onde chamei para tocar comigo uma turminha bem
jovem, mas em quem eu acreditava totalmente. Não me enganei...Nessa
turma estavam os irmãos Caio e Graco Silvio, Francisco Casaverde( o
querido Ferreirinha), Célio Loureiro, Tarcísio Lopes e ainda, contamos
nesse show, com a participação especialíssima do grande Petrúcio Maia.
Nessa época, Fagner gravou, com o Ney Matogrosso, uma parceria minha com o
Fausto Nilo (Postal de Amor) e aí entrei em uma hibernação musical. O
Fagner veio morar conosco na Maraponga, na nossa casa. Naqueles seis
meses em que ele morou conosco, o nosso sítio era uma festa constante:
música, futebol, artes plásticas ( foi aí que o Fagner começou a desenhar
e pintar) e outras coisas mais, típicas daqueles anos loucos...
Felizmente o Fagner encontrou o Fausto Nilo para ser seu quase letrista
oficial. Se tivesse continuado comigo como letrista, com certeza não
teria feito o mesmo sucesso. Eu gostava mesmo era de fazer música. As
letras que eu havia feito foram mera necessidade, já que o Fagner ainda
não havia se botado para escrever. (Na verdade ele fez poucas canções com
letra e música dele, mas essas poucas são todas antológicas).
Bem, eu acho que ainda não respondi à sua pergunta. A verdade é que
apesar de termos mantido uma grande amizade por um bocado de tempo,
daquela de se ver todo dia, de andar sempre junto, completando o nosso
trio o genial Mino Castelo Branco (cartunista, artista plástico, poeta,
filósofo entro outros predicados), a vida deu voltas e acabamos por nos
afastar naturalmente.
- E como é hoje a sua relação com o Fagner ? Há alguma chance de novas
parcerias ?
RB -
Minha relação hoje com ele é praticamente telefônica. Aqui acolá eu
ligo para ele e só acolá ele liga para mim (às vezes às 2 horas da
madrugada). Com relação à parceria, só o destino dirá, ou melhor dizendo,
só Deus sabe...
- A música Cavalo-ferro é uma das primeiras da carreira de Fagner. É
verdade que se pode ver algumas críticas ao poder em sua letra ?
RB –
Sem dúvida...Na verdade nunca fui ativista político, mas qualquer um,
àquela época, sentia, na pele, o autoritarismo, a censura, a ameaça
velada, o medo do poder ditatorial. Qualquer manifestação cultural ou
artística tinha que ser antes censurada na Polícia Federal. Cavalo-ferro
não escapou. Na letra, eu havia escrito “onde se decide o bem e o
mal” e os censores, em Brasília, mudaram para “onde se divide o bem
e o mal”. Grande m...! Também foi só isso que mudaram. Acho que não se
incomodaram de eu dizer que o Planalto Central (naquela época), era um
“concreto-ferro-surdo-cego”. Nesse ponto, tenho a impressão que os
censores, provavelmente nascidos em outras cidades do Brasil, e que deviam
viver cheios de saudades de suas terras, concordavam plenamente comigo...
- Em entrevista, você já afirmou que Manera Fru Fu conta a estória de uma
prostituta num grande centro urbano. É isso mesmo ? Qual a lógica da
música e como ela foi composta ?
RB –
Fru Fru é o que podemos chamar de parceria mista. Cada um (o Fagner e eu)
fez uma parte da letra e uma parte da música, apesar de que a maior parte
da música é do Fagner e da letra, minha. Naquela época era moda a
metalinguagem (ver “Vaila” do Ednardo com parceria do Brandão). E nós
fomos na onda...Enquanto estava construindo o corpo geral da letra, não me
passava pela cabeça qualquer estória de prostituta...Depois de terminado é
que inventei essa conversa, pois realmente tinha tudo a ver. Algumas
pessoas achavam que era um travesti... Deixo essa parte, no entanto, para
Freud explicar a de cada um... O que é certo é que na época fazia muito
sucesso o Jorge Ben com “Charles Anjo 45”, que tinha aquele refrão que
dizia: “take it easy my brother Charles, take it easy meu irmão de
coôorrr” Aí na letra de Fru Fru eu transformo isso para “têc têc têc ri,
brode brode brode chá” . Entenda quem quiser... Aliás naquela época
ninguém estava muito preocupado em se fazer entender. (Depois dessa
declaração, espero que o Jorge Benjor não queira cobrar pelos direitos
autorais...)
A
minha parte da música é só o refrão, sendo o restante do Fagner. É,
desculpe a falta de modéstia, uma das músicas mais criativas e
intrigantes produzida naquela época e até mesmo para os padrões de hoje.
Pelo fato de ser uma música bem diferente, só os corajosos e mais afoitos
topa(ra)m gravá-la. (Essas qualidades geralmente só se encontram nos mais
jovens). Diferente de Cavalo-ferro que já teve inúmeras regravações, por
ser uma canção mais fácil de deglutir e ter um astral de “hino de uma
geração” ( a modéstia me abandonou de vez...)
Aliás, apesar dessas duas músicas terem sido, junto com Mucuripe, as
principais canções com as quais o Fagner rompeu no cenário nacional da
MPB, nenhuma dessas nossas duas parcerias está no seu repertório de
shows. A ausência de Fru Fru é bastante explicável, pois não temos mais
18 anos para sair por aí gritando “Fru Fru manera frufru manera fru
fru...” Já, para Cavalo-ferro, acho que a única solução seria ele
transformá-la em um forrózão e incorporar ao seu repertório nordestino.
Fica aí a idéia...Talvez valha a pena, pois a letra ainda é atual,
bastando para tal, acrescentar na famosa frase censurada as palavras “não”
e “sabe mais”. Ficaria assim: “pulsando nun segundo letal/no planalto
central/ onde NÃO se SABE MAIS dividir o bem e o mal...” Dá pra entender,
né ?
- Como você vê o estágio atual da carreira de Fagner ? Você concorda que
tem havido, nos últimos anos, uma tentativa por parte dele em recuperar um
pouco o público perdido nos anos setenta ?
RB –
Não sei se ele está preocupado com isso. O lugar que ele ocupou e ocupa
hoje, ninguém pode tirar. Ele ainda é um artista altamente respeitado e a
procura por seus shows continua firme e forte. Mesmo da época em que ele
teve alguns produtores que popularizaram o trabalho do artista, ele tirou
algumas jóias que se incorporaram como clássicos de seu repertório como
“Borbulhas de Amor”, que um monte de gente adora, Deslizes e outras mais.
- Os grandes nomes de nossa música já passaram dos 60 anos (Chico Buarque,
Caetano, Milton, Ney Matogrosso), ao mesmo tempo em que nomes como Maria
Rita, Chico César e Zélia Duncan são mais exceções que regras. Como você
vê o atual momento da nossa música e quais as principais tendênciais que
agradam aos seus ouvidos ?
RB –
Sou fã de carteirinha de Maria Rita e do Chico César. (Não conheço bem o
trabalho da Zélia Duncan, portanto não posso falar). Existe, realmente
uma crise na MPB. Aliás, andam até atrás de outras siglas para ver se a
coisa muda de figura.
No
meu entender, a crise não é de artistas (estes existem em grande
quantidade e de excelente qualidade), mas da “máquina” das gravadoras.
Num curto espaço de tempo, o mercado deu tantas voltas, tudo tão rápido,
que as antes “onipresentes” e “onipotentes” gravadoras, com seus diretores
que eram verdadeiras estrelas da mídia nacional e até internacional,
ficaram completamente tontos e atordoados. Não souberam dar uma resposta
imediata para os sites de música na Internet, o mp3, a copiadora de CD
barata – que qualquer um pode ter em casa – a inevitável pirataria... e
outras coisas mais. Essa gigantesca “paulada na moleira”da tal da toda
poderosa “máquina” desarticulou todo o sistema. Os grandes artistas foram
dispensados, indo para esquemas alternativos (viva o Antonio Adolfo,
precursor de tudo isso), ficando no esquema somente os atistas de massa
(normalmente de péssima qualidade – pelo menos para os meus ouvidos),
impulsionados pelas TVs comerciais e um ou outro de qualidade, como os
indestrutíveis ( até segunda ordem) Roberto Carlos, Caetano Veloso e Chico
Buarque.
- Quando teremos a chance de ver um show de Ricardo Bezerra ?
RB –
Provavelmente... nunca !
Músicas de Ricardo Bezerra gravadas por Fagner:
1 –
Sina (Fagner/Ricardo Bezerra/Patativa do Assaré)
2-
Cavalo-ferro ( Fagner/Ricardo Bezerra)
3-
Manera Fru Fru Manera (Fagner/Ricardo Bezerra)
4-
Postal de amor (Fagner/Fausto Nilo/Ricardo Bezerra)
5-
Cobra (Alano Freitas/Stelio Valle) Voz: Ricardo Bezerra e Fagner
6-
Gitana (Ricardo Bezerra) – Voz: Fagner, Ricardo Bezerra e Amelinha
7 –
A nova conquista (Fagner/Ricardo Bezerra) Voz: Fagner e Cirino
Discografia de Ricardo Bezerra:
-
Maraponga – EPIC, 1978
-Notas de viagens , CD, 2002 |