
Acima, a capa do disco lançado na época
do festival.
Este é mais achado histórico de nossa amiga KlaudiaO ano era 1969 e a repressão
política no Brasil atingia o seu auge.
Para alguns jovens no entretanto, era época de tentar correr atrás de seus
sonhos e realizar suas aspirações futuras, mesmo porque eram bem novos ainda e
além do que se ouvia no colégio e dos amigos, pouco se sabia da dura realidade
que o país enfrentava nos porões da ditadura.
Em Fortaleza, o jovem Raimundo além de estar cursando o 2º Grau, e jogar muita
pelada, estava também empenhado em fazer suas composições e ganhar os festivais
de música da cidade, pois esse era o melhor método para se expor no mundo
musical e ficar conhecido.
Ele tinha acabado de ganhar o IV Festival da Música Popular do Ceará, realizado
em dezembro de 1968 no Teatro José de Alencar, promovido pelo Jornal O POVO e a
Secretaria de Cultura do estado, quando recebeu pelo primeiro lugar com NADA
SOU, uma composição sua com Marcus Francisco, (inscrição no. 38) a quantia de
NCr$ 500,00 e uma assinatura anual do jornal.
Já
para o Festival Aqui, realizado em 1969, ele inscreveu LUZIA DO
ALGODÃO, outra parceria sua com Marcus Francisco .
O prêmio para os classificados neste festival era a gravação da música em um LP
do festival.
Apesar de ter sido defendida por outra cantora no festival, LUZIA DO ALGODÃO foi
gravada no disco por IZAÍRA SILVINO que nos conta agora como se tornou a
primeira pessoa a gravar uma composição de Fagner em disco.
1) Você pode falar um pouco
sobre o Festival Aqui, como ele foi organizado, por quem e qual o objetivo
principal ?
R. O
“Festival Aqui” foi organizado/idéia de Aderbal Freire Junior (sim, este mesmo
Aderbal, agora, famoso e premiado diretor de teatro. Ele é cearense tb.), na
Rádio Assunção Cearense (uma emissora que pertencia à Igreja Católica de
Fortaleza e, hoje, bem não sei se ainda existe, ou se ainda é da igreja).Naquele
festival, o prêmio era a gravação das 12 músicas classificadas na semifinal.
Então, não havia classificação ou prêmio para 1o, 2o ... Os jovens mais
participativos da vida musical da cidade, os que iniciavam-se (e bem) na vida
musical como compositores, os melhores, participaram daquele festival. Posso
dizer que foi um dos festivais mais organizados que houve em Fortaleza. E que
teve repercussão histórica. O fato de ter gerado um objeto de mídia foi bastante
significativo.
2)
Como você
resolveu cantar neste festival ? Já tinha uma carreira de cantora antes ?
R. Não é que eu tivesse ou tenha uma carreira de cantora. Tive uma vida muito
grupal em minha juventude. E umas das danações de minha patota (eu estudava
música desde criança e minha casa tinha uma vida musical bem intensa, são vários
artistas) era ter um grupo musical o “The sangue sugar’s” (uma brincadeira com
os “Swing Singer’s” da época). Todos eram compositores e tínhamos vários fãs.
Então, este nosso grupo inscreveu música no festival. Foi esta a minha
participação. Nossa música não ficou para as semifinais, mas fomos participar da
gravação fazendo vocal para um amigo (o Gustavinho Silva, um dos classificados).
Então, no dia da gravação, a cantora que iria fazer a Luzia de Algodão ficou
meio que sem voz, estava afônica. Eu estava lá, o Aderbal não gostava da voz do
Fagner e disse que eu gravasse a Luzia. Daí, caí meio que de “paraquedas” na
história artística do Fagner. Com muita honra, viu? Bem... não tão assim de
paraquedas. Mas não fui a escolhida, a planejada, a convidada para tal. Eu
estava lá na hora e fui a solução para um problema que se formara.
3) Qual era o seu relacionamento com o Fagner ? Já o conhecia antes do
festival ?
R. Eu já conhecia o Fagner, sim. Como? Fui professora de Educação Artística do
Fagner, no Colégio Salesiano que ele freqüentou, onde fez o 1o e 2o graus. Creio
que mostrei algumas vantagens do mundo da arte para ele. Ele já era um encantado
por arte, tanto que seu maior amigo era um artista, o Marcos Francisco (seu
parceiro na Luzia do Algodão, aliás, creio, que foi seu primeiro parceiro. Ele
era um grande artista plástico). Eu era muito jovem, para ser professora de uma
escola só de meninos e todos os alunos me queriam muito bem, identificavam-se
com a professora. Então, o Fagner era um destes amigos alunos. Por isto que
disse que minha caída no mundo discográfico dele não foi assim tão de
“paraquedas”
4)
Como veio a defender a música dele no Festival ? Sabe porque ele mesmo não
a defendeu ?
R. Então, como já disse, o Fagner, à época, não se identificava tanto como
cantor, como se sentia compositor. Não foi ele quem defendeu sua música, no
festival, foi aquela menina... não me lembro, agora, o nome dela (aquela que
ficou af|ônica na hora da gravação). Dizem que o Aderbal não gostava da voz
dele. Mas o Aderbal nega isto de fogo a sangue, até hoje.
5)
Em que lugar a canção ficou classificada ?
R. Como já disse antes, não houve classificação. Ela era uma das mais lindas
do festival, ficou entre as doze. Sei que estes compositores foram, mais
tarde, todos, pessoas que se projetaram nas atividades artísticas que seguiram.
6)
Depois deste festival , você continuou sua carreira de cantora ?
Segui minha rota artística, mas não como cantora, pois nunca me senti assim.
Cantava em grupo. Estudava violino e piano. Fiz curso superior de música, fui
professora de educação artística, regente de coro e professora universitária
(fui regente do coro de minha universidade, a Federal do Ceará). Fiz um trabalho
de integração com arte e projetei, no mundo coral de minha cidade (Fortaleza), o
movimento de cantar MPB em coro e com um coro que cantasse com corpo, alma e
divindade (fazendo espetáculos no palco, não cantando como se estivesse numa
igreja), com um regente dançarino. Aposentei-me da universidade em 1996. Tenho,
agora, 58 anos. Ainda trabalho com regência de coro e direção artística de
espetáculos, como, tb., participo de curso de pós graduação. Dediquei-me à
pesquisar a relação da arte com educação (sou mestra em educação) e procuro dar
minha contribuição nesta área.
7)
Como foi a gravação do álbum Festival Aqui ?
R. Só lembro da alegria de todos, da colaboração de uns com os outros, da
molecagem de estar junto. Éramos um bom grupo de jovens artistas. O Fagner era
dos mais novos, então, era meio menino arredío, meio caladão com os outros (não
com os amigos, claro).
8)
Depois desse episódio vc teve algum outro relacionamento musical com Fagner ?
Sabemos que ele foi p/ Brasilia em 1971, vc hoje mora em Brasilia. Tb foi
para lá naquela época ?
R. Meu relacionamento com o Fagner foi e é, sempre, de amizade. Adoro o
Fagner e, creio, ele me tem muita amizade, também. Pelo menos, demonstra isto
com clareza. Sou fã de sua coragem, de sua ousadia, de seu jeito de estar sendo
no mundo.
9)
O que vc faz hoje ?
R. Escrevo, estou organizando publicação de algumas pesquisas e conferências
que tenho feito sobre a relação da arte com a educação. Estudo e experimento
trabalhar com TEAR, para praticar algo que não precise falar para convencer
alguém sobre algo. Quando me procuram, dirijo algum espetáculo. Cheguei em
Brasília há dois anos. Sou, aqui, uma ilustre desconhecida (viajo muito pra
Fortaleza, pois é de lá que recebo convites para trabalho). Acho que me
candidatarei a um doutorado, talvez, em Antropologia, em 2004 e criarei um grupo
para reger. São planos ainda no ar.
10)
Alguma coisa mais que a gente não falou e vc gostaria de acrescentar ?
R. Quero parabenizar vocês que se dedicam a conversar e refletir sobre os
artistas que amam. Isto é algo que encanta num mundo onde se pensa tão pouco no
amor. O mundo dos objetos de mercado cultural é muito zoeiro e material. Mas o
que está gravado é expressão de vida. Os fãs, e os fãs como vocês,
humanizam esta relação, dão amorosidade a este mundo, que, afinal é nosso. Não
dos vendedores de disco, não é?
BEIJOS PRA VOCÊS E, PRINCIPALMENTE PRO FAGNER, ESTE PRÍNCIPE NORDESTINO,
CANTADOR DE CANTIGAS DE ENCANTAMENTO.
LP
FESTIVAL AQUI – 1969
Lado A:
1-Fox Lore (Rodger/Dedé) c/ Rodger Rogério
2-Vejo (Piti) – c/ Lourdinha Vaconcelos
3-Rosa (Wilson Cirino) – c/ Wilson Cirino
4-Esquina Predileta (Rodger Rogério) c/ Ray Miranda
5-A história do rapaz qye olhou para os balões e perdeu as meninas de vista
(Luis Fiuza/Ricardo Bezera) - c/ Beatriz Fiuza
6-Luzia do Algodão (Raimundo Fagner/Marcus Francisco) – c/ Izaíra Silvino
LADO B:
1-Encabulado(Braguinha/Dedé) –c/Ray Miranda
2-Unilateral (Ricardo Bezerra/Brandão) – c/Beatriz Fiuza
3-Canção (Maninho/Yêda Estergilda) – c/ Lucia Arruda
4-A dança do Torém (Lauro Benevides/Iracema Mello) – c/Lauro Benevides e Os
Vagalumes
5-O santo (Sérfio Pinheiro) – c/ Sérgio Pinheiro
6-Esquecimento (Luis Fiuza/Ricardo Bezerra) – c/ Lúcia Arruda
A
Página dos Amigos de Fagner queria agradecer a gentileza de Izaíra Silvino, que
tão prontamente atendeu nossa solicitação para essa entrevista e também
agradecer à sua irmã, a cantora Aparecida Silvino que foi a ponte de ligação
entre nós e Izaíra.
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