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PROCESSO DE
CRIAÇÃO
No
meu
caso,
as primeiras
letras
eu
escrevi
em
um
papel
e entreguei ao
parceiro.
A
primeira
letra
que
realizei, de
fato,
foi Dorothy Lamour,
com
Petrúcio
Maia
e a
outra,
quase
na
mesma
época,
foi
Fim
do
Mundo
com
Fagner
que
foi gravada
pela
Marília Medalha. Essas duas
músicas
eu
escrevi a
letra
e passei
para
os parceiros,
que
é o
modo
como
fazem 99% dos
letristas.
Essa
técnica
é a
mais
universalizada. É
que
se tem a
tradição
de
que
a
letra
da
canção
vem da
literatura.
Eu
não
gosto
muito.
Nunca
pretendi
ser
poeta,
escrever
livros,
prefiro
ser
chamado de
letrista,
aí
me
sinto
colega
de Mário
Lago,
Lupicínio Rodrigues, Orestes Barbosa.
Poeta
é
coisa
de
livraria,
a
pessoa
compra
para
ler
em
silêncio,
é uma
outra
técnica
que
eu
jamais
realizaria a
contento.
Apesar
de
ter
feito
essas
letras
no
início,
eu
depois
inverti o
processo.
Sou
um
letrista
que
trabalha
em
cima
das melodias. Devo
ter
aqui
nos
meus
arquivos,
por
fazer
ainda
as
letras,
umas trinta
melodias
do Dominguinhos. Tenho
sempre
melodias
do Geraldo Azevedo, João Donato, Fagner, Sueli
Costa,
meus
parceiros
mais
constantes.
Eu
fico ouvindo aquelas
músicas
e as
letras
chegam de
forma
natural.
Eu
fico
só
prestando
atenção,
acariciando-as e ajudando
para
que
elas
cantem… O
parceiro
dá
um
som
e a
música
está querendo
cantar.
Letrar uma
música,
para
mim,
é
um
trabalho
a
serviço
da
música,
é
pra
cantar
mesmo.
Tem umas
partes
que
são
fáceis de
memorizar,
outras produzem
sonhos,
imaginações.
Esse
compartilhamento
entre
o
ouvinte
e
quem
faz a
letra
é uma
coisa
complexa.
No
meu
aprendizado,
31
anos
de
atividade
profissional,
acho
que
é uma
cumplicidade
entre
você
e as
pessoas
que
fazem
parte
de
sua
legião,
que
têm
algo
em
comum com você. Mas
também
que
a
canção
seja
um
entretenimento,
não
importa se seja melancólica, todas as
emoções
tem
valor.
Então,
quando
eu
ouço uma
melodia
que
os
parceiros
me
dão,
eu
procuro
descobrir
o
que
ela
quer
passar
e
quando
descubro, faço a
letra.
É
assim
que
eu
trabalho.
Sou
um
letrista
que
põe
letras
sobre
as
melodias,
o
que
não
quer
dizer
que
eu
não
possa
fazer
o
contrário.
Agora,
com
Ivan Lins está ocorrendo
isso.
Estamos
com
uma
parceria
prometida
desde
os
anos
70.
Ele
esperando
que
eu
lhe
passasse uma
letra
e
eu
esperando uma
melodia
dele e
nunca
acontecia…
Agora
eu
me
dei
por
vencido e passei umas
letras
para
ele.
Com
Fagner
isso
quase
nunca
acontece.
Já
faz
parte
de
nossa
forma
de
compor.
Ele
me
dá uma
melodia
e
eu
ponho a
letra.
ARQUITETURA X
COMPOSIÇÃO
Pessoas
que
tem duas
atividades
são
vistas
como
dublês,
como
se uma das duas
atividades
fosse
um
hobby
e a
outra
realmente
a
principal,
mas
no
meu
caso
não
é.
São
duas
coisas
misturadas
na
minha
vida
com
a
mesma
paixão,
a
mesma
dedicação.
É uma
dádiva
do
Céu.
Quando
uma está
me
cansando, tenho a
outra
e
todo
dia
fico nesse
moinho.
Sou o
sujeito
mais
feliz
do
mundo
por
ter
essas duas
atividades
que
vieram
juntas.
Desde
criança,
na
minha
mais
remota
lembrança, a
música
estava
presente
como
ouvinte.
Fui freqüentador de
auditório
de
rádio,
sabia
tanta
música
que
as capturava do
rádio
na hora exata em que elas tocavam. E
também
desenhava.
Desde
criança
convivo
bem
com
essas duas
artes.
No
colégio
desenhava
bem
e
isso
sempre
criava
situações
confortáveis
entre
os
colegas
de
escola
e de
rua.
Eu
só
vim
fazer
letra
de
música
quando
saí da
universidade
em
1971,
em
Brasília. Foi o Fagner
quem
me
pediu uma
letra.
Eu
tinha
passado
uma
para
o Petrúcio
Maia,
morrendo de
vergonha
(Dorothy Lamour) e fiquei
com
medo
da
censura,
de
como
Petrúcio ia
encarar
aquilo
pois
eu
não
era
letrista.
Até
ali
nunca
tinha
feito
uma
música.
Eu
estava
com
eles
na
universidade,
no
Bar
do Anísio
desde
o
começo,
passava a
noite
tocando
violão,
berrando no
botequim
até
de manhãzinha.
Era
essa a
minha
vida.
A
Arquitetura
e a
Música
são
duas
linguagens
diferentes.
Uma
trabalha
com
a sonoridade,
com
as
palavras,
o
que
elas
significam; e a
outra
trabalha
com
o
espaço
que
se comunica
entre
as
necessidades
que
as
pessoas
têm, sozinhas
ou
em
grupo, para
desempenhar
determinadas
atividades.
Essa é a
função
da
arquitetura.
Para
mim
essas duas
coisas
estão
muito
juntas,
mutuamente
elas
se alimentam.
Às
vezes,
a
busca
de uma
frase
para
uma
música,
apoiada numa
compreensão
da
vida
e iluminada
por
algum
conceito,
é
algo
que
na
arquitetura
eu
aplico de
outra
forma
e
não
há
conflito
nisso.
PESSOAL DO CEARÁ
Eu
comecei a
fazer
música
a
partir
de 1971,
mas
antes
já
estava no
meio
desta
turma
desde
1965, ao
entrar
na
universidade.
O
núcleo
físico
onde
o chamado Pessoal do Ceará aconteceu foi a
minha
faculdade.
Eu
fui
presidente
do diretório da Arquitetura. Éramos onze
alunos
e
esse
lugar
virou
um
ponto
de
convergência
da
juventude
que
tinha
interesse
intelectual
em
cinema,
música
em
geral,
jazz,
tinha
também
futebol,
política.
E chegaram
muito
amigos,
uns
mais
velhos,
outros
mais
novos.
Os
mais
velhos
como
Petrúcio
Maia,
Augusto
Pontes e Rodger Rogério eram os
decanos,
o
miolo
inicial.
Depois
veio
o Brandão, Ricardo
Bezerra,
Fagner,
Belchior
(que
tinha
sido
meu
colega
de
colégio
e
que
eu
revi
já
na
faculdade,
ele
tocando
violão
e compondo)... Fizemos uma
turma
que
se encontrava no
diretório,
aquele
clima
de
movimento
estudantil,
revolução
de
costumes,
a
pílula…
Foi
nesse
clima
que
se formou o “Pessoal
do Ceará”,
mas
não
foi
só
aqui.
Aconteceu no
Recife
com
Geraldo Azevedo, Alceu Valença.
Era
uma
coisa
do Brasil
todo.
Na Bahia, Caetano
um
pouco
antes,
mas
a
mesma
idéia,
pessoas
que
se aglutinavam
em
torno
de
interesses
como
o
cinema
francês etc. Eram várias
turmas,
até
que
chegou o
pessoal
mais
novo,
mais
“pop”
como
Fagner,
bem
mais
jovem
que
a
gente,
com
outra
coisa,
aí
misturou
tudo
e deu o “Pessoal
do Ceará”,
que,
na
realidade,
é
um
título
para
designar
pessoas
do
mesmo
lugar
e da
mesma
época,
mas
não
era
um
grupo
no
sentido
de
ter
um
projeto,
não
havia
um
manifesto
conjunto,
um
acordo.
Se
você
comparar
os trabalhos de Petrúcio
Maia,
Belchior
e Fagner, vai
notar
que
são
coisas
paralelas…
BALADA
DE
AGOSTO
(CD Fagner e Zeca Baleiro, 2003) X PARAÍSO
PROIBIDO
(LP Romance no Deserto, de Fagner, 1987) -
A
mesma
melodia
– duas
letras
diferentes
Não
é a
primeira
vez
que
se tem uma
melodia
com
duas
letras.
Se
não
me
engano,
Manhã de Carnaval tem duas
letras.
Mucuripe tem duas
melodias.
O
Belchior
tem
um
disco
com
uma
música
com
duas
versões,
uma dele e
outra
do Gil. O Zeca
Baleiro
ouviu a
melodia
em
uma
fita
e fez uma letra. O Fagner
não
lembrava
mais
da
nossa
(Paraíso Proibido),
pois
foi uma
música
que
não
se impôs.
Eu
gosto,
mas
ela
ficou
meio
esquecida e
isso
é uma
situação
que
não
me
incomoda.
Eu
disse:
tudo
bem,
grava
com
outra
letra.
O Zeca conheceu a melodia,
mas
não
conhecia
com
a
minha
letra.
Eu
acho
que
a
letra
do Zeca é
melhor
que
a
minha.
FAGNER E ZECA
BALEIRO
A
história deste
encontro
foi a
seguinte:
quem
apresentou Zeca
Baleiro
ao Fagner foi o letrista Sérgio
Natureza,
no
Rio
de
Janeiro.
Eles
tiveram
um
primeiro
encontro
rápido,
mas
eu
já
tinha
conhecido
o Zeca.
Ele
veio
a
Fortaleza
fazer
um
show
e mandou
me
convidar.
Eu
fiquei na platéia, e
quando
o
show
terminou, a
pessoa
da
produção
me
levou
até
o
camarim.
Lá,
eu
o parabenizei
pelo
show
e
ele
disse
que
queria
conversar
comigo.
Conversamos no
hotel
até
às
cinco
horas
da
manhã
e, a
partir
daquele
dia,
senti
como
se o conhecesse há
muitos
anos.
Uma
pessoa
com
quem
tive uma
grande
e imediata identificação
em
vários
aspectos.
Ele
me
disse
que
ouvia
muito
minhas
músicas,
conhecia
todo
meu
repertório
e
que
ouvia
muito
Fagner. Combinamos de a
gente
se
encontrar,
no
dia
em
que
Fagner estivesse na cidade.
Outra
ocasião
ele
me
disse
que
tinha
conhecido
Fagner no
Rio,
mas
que
tinha
sido
rápido.
Aí
aconteceu de os
dois
estarem
em
Fortaleza.
Nos
encontramos, batemos
um
papo,
depois
eles
se encontraram
novamente
e
um
dia
Zeca
me
ligou
para
dizer
que
o Fagner
tinha
tido a
idéia
de
nós
três
nos
reunirmos
para
fazer
um
trabalho
em
conjunto.
Podia
ser
um
show,
um
disco
ao
vivo.
Nos
encontramos na
casa
de Fagner, na praia, e
lá
discutimos
muitos
conceitos
sobre
isso,
muitas
idéias
e fizemos algumas
músicas.
Eu
já
vinha
fazendo
com
o Zeca algumas canções e
aí
a
coisa
foi evoluindo. Fizemos
um
show
para
experimentar
parte
dessas
músicas,
depois
nos
reencontramos e fizemos
mais
outras
para
fechar
o
disco.
Eles fizeram algumas
em
dupla,
eu
fiz umas
com
Fagner, outras
com
o Zeca e algumas
nós
três.
TRÊS IRMÃOS
A
idéia
da
canção
Três Irmãos surgiu
quando
eu
estava
em
Paris, há uns 10 anos, visitando a FNAC de
lá.
Eu
gosto
muito
de
música
francesa e vi uma
coleção
de 20
discos
da
história
da
música
francesa
desde
o
ano
de 1200
até
a
atualidade.
Escolhi
alguns
volumes
e
entre
eles
tinha
um
que
era
composto
de
baladas,
canções
que
lembram a
literatura
de
cordel.
Essas
canções
eram usadas
para
passar
as
informações
da
época
às
pessoas
analfabetas. Os
cantadores
iam pelas
estradas
contando as histórias.
Na
primeira
audição,
essa
música
me
impressionou
muito
pela
letra
e
pela
semelhança
com
a “coisa”
nordestina. Traduzi a
letra
e fiquei pensando
em
trazê-la
para
a
atualidade,
com
o
tema
original,
porém
com
o
cenário
de
hoje.
O
que
tem
em
comum
entre
a
canção
francesa
original
e a
minha
é o
tema
em
que
três
irmãos
são
brutalmente
assassinados
injustamente.
Eu
peguei o
tema
e trouxe
para
a
cena
urbana
de
hoje.
Na
excursão
de Fagner
com
Zeca
Baleiro
em
2002,
era
essa
canção
que
abria os
shows.
Esses
shows
foram
como
uma
experiência,
uma
preparação,
uma
coisa
muito
ousada,
com
oito
a
dez
músicas
inéditas.
Nem
todas foram
para
o
disco
e o restante eram os
sucessos
de
cada
um.
Um
show
muito
interessante.
MÚSICA NA
INTERNET/PIRATARIA
Nós
estamos diante de um salto tecnológico que produz a alteração da cultura, de
tanta coisa…Assim como a invenção da roda, da pólvora, nós estamos diante de uma
situação dessas. O que me impressiona é que ninguém fala do prejuízo dos
autores, só se fala do prejuízo das gravadoras. A arrecadação está caindo e eu
acho que esta cultura toda de arrecadação de direito autoral tem que sofrer uma
revolução. Nós temos que descobrir outras formas de o autor ser recompensado,
novas formas que eu não sei ainda quais são, mas não acredito que haja regresso
nessa tendência do milênio de se copiar tudo. Acredito que os negócios vão
mudar nessa área, talvez se deixe de vender disco mesmo, no sentido físico de se
comprar um CD, colecionar na prateleira… Pode ser que esse sistema que estão
tentando nos Estados Unidos, de vender música unitariamente por um preço que
tende a cair cada vez mais, funcione…Naturalmente que uma música minha, vendendo
pela internet, venderia muito mais que em uma loja, por exemplo. Porque na
internet existe a acidentalidade, a casualidade; a loja não, tem que sair de
casa e ir até lá. Na internet eu posso encontrar uma música, gostar, saber
quanto é, dar um clique e pronto, o dinheiro está no banco.
FAUSTO
CANTOR
A
primeira vez que cantei em disco foi na época do disco coletivo Soro, do
selo EPIC, que o Fagner dirigia na CBS. O pessoal até brincava com a sigla na
época, chamando de “cearense bem sucedido”, mas não eram só cearenses, tinha
pernambucano, carioca… O Fagner foi convidado para dirigir O EPIC que era um
selo que não “pegava” aqui no Brasil. A CBS era muito dependente do Roberto
Carlos e o selo EPIC veio a diversificar o elenco: gravaram Amelinha, Robertinho
de Recife, Clodo, Téti, Rodger, o álbum duplo coletivo Massafeira, Cirino etc.
De todo mundo, só eu realmente não gravei, porque nunca disse que queria
gravar. Nunca manifestei esse desejo, nunca tive pique para essa atividade, pra
luta da carreira, aquela disposição. Eu sempre fui uma pessoa discreta, então
nunca cogitei. No Soro fui lá, dei aquela “palhinha” e pronto. Só vim a
cantar aqui, porque nos meus 50 anos me ofereceram para fazer um disco. Aí veio
aquela idéia de chamar os parceiros, mas eu não gosto desse tipo de disco, acho
meio falso. Aí eu disse que eu mesmo podia cantar minhas músicas. E na
verdade, eu tive que aprender, pois eu sempre cantei, mas no botequim… Nunca
cantei em palco e nunca tinha gravado disco até que fiz aquele primeiro (Esquinas
do Deserto). Não tenho esquema para vender no Brasil todo, mas aqui no
Ceará os meus discos vendem cerca de quatro, cinco mil cópias.
Quem
se
interessar
em
adquirir
os
dois
CDs de
Fausto
Nilo,
Esquinas
do
Deserto
e
Casa
Tudo
Azul,
eles
podem encontrados no
site
da
loja
Desafinado, de Fortaleza (www.desafinado.com.br),
pelo email do Fausto Nilo (fnilo@secrel.com.br)
ou pelo fone (85) 264.9090.
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