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ENTREVISTA COM CALÉ ALENCAR
Ele é músico, cantor,
compositor, produtor, agitador cultural e grande divulgador da música,
assim como da cultura cearense. Quando se pensa em cultura na cidade de
Fortaleza, é difícil que seu nome não esteja envolvido no projeto. Calé
Alencar e cultura cearense são basicamente sinônimos. Das várias
entrevistas que já realizei para a “Página dos Amigos”, essa foi uma das
que eu mais curti fazer. Passo agora para vocês a conversa incrível que
tive com Calé Alencar em Fortaleza, na sede de sua produtora, a
Equatorial Produções, onde a cada cantinho das estantes e centímetro de
parede se respira cultura e música do Ceará.
1- Como foi que você descobriu a música ?
- A música veio no ambiente familiar, primeiramente. A minha família
sempre teve muita relação com a arte e a música sempre acompanhou a vida
cotidiana da minha família, desde a forma de conviver em casa, com as
atividades domésticas, a minha mãe, as minhas tias também, muito
musicais. Eu descobri também, através deste convívio familiar, não só a
questão da música, mas as influências também de todo um repertório de
décadas anteriores ao meu nascimento. Eu nasci na primeira metade da
década de 50 e aí meus tios e tias me trouxeram aquele repertório todo,
não só da música sertaneja tradicional, mas também da música brasileira
daquele período e de períodos mais pra trás um pouco. Então isso tudo
foi um ambiente super favorável. Também a riqueza da cultural musical
do nordeste onde você vê música na rua em todos os momentos. Música na
feira, os cantadores, os repentistas, os rabequeiros, os cantadores de
cordel, isso natural, na rua. Além disso, Luiz Gonzaga principalmente,
rádio nos anos 50, começo dos anos 60, depois a televisão, já em
Fortaleza. Tudo isso vai atraindo a atenção quando você já tem um pouco
de feed-back para a questão musical. Eu vim a descobrir música muito
cedo, graças a Deus. Foi uma coisa que me iluminou, sempre. E eu
sempre tive muita clareza de que a música ia acompanhar a minha vida
como o código que escolhi para me comunicar com o mundo.
2- Você pertence à família Alencar, uma família
tradicional do Ceará. Fale-nos um pouco sobre isso.
- A minha família Alencar é uma família que vem ainda da serra da
Gameleira, da região do Exu Velho, que é a região mais antiga. É onde
havia inclusive todo aquele ambiente de disputa entre a família Alencar
e a família Sampaio. Sempre havia êxodos de ramificações das duas
famílias. A minha mãe ainda nasceu em Exu, vários tios e tias, irmãs de
minha mãe ainda nasceram em Exu. A família de meu pai é cearense , de
Fortaleza. E meu pai, em Juazeiro do Norte conheceu minha mãe ,q eu
tinha se mudado com meus avós, nos anos 40. Eu fui gerado em Juazeiro
do Norte, toda a gravidez de minha mãe foi lá, mas eu nasci em
Fortaleza, na Praça da Lagoinha. Porém, voltamos para Juazeiro e aos
dez anos de idade voltei para Fortaleza onde moro até hoje. A relação
desse ramo da minha família com a terra de Exu, que é a terra de Luiz
Gonzaga, como eu falei, minha mãe nasceu lá, então ela carregava toda
essa influência do sangue tradicional da família Alencar. Na verdade,
existe um ramo que é mais ligado diretamente à Bárbara de Alencar, que é
a família Alencar-Araripe e a minha mãe veio da minha avó, da minha
bisavó e tataravô que tem o sobrenome Alencar. Esse povo todo foi
criado nessa região da Fazenda Gameleira, que eu cheguei a conhecer.
Depois de muito tempo fui lá pra conhecer essa região, fiquei lá um
tempo pra perceber ali o ambiente onde minha família foi criada,
sobretudo minha relação mais direta com minha mãe e minha avó, que
também conheci, ainda no vigor de sua vida e de sua participação como
matriarca desse ramo de nossa família e trouxe desse povo uma influência
muito grande, não só na questão artística que é uma coisa que sempre
permeou a personalidade de um sujeito da família Alencar, de um
componente da família que carrega esse sobrenome. A arte está sempre
relacionada, mas sobretudo a parte musical, que sempre me acompanhou. A
gente tem, inclusive, como constatar, historicamente que Luiz Gonzaga
também era um Alencar do Exu, porque a mãe dele tinha esse sobrenome,
Alencar. Ao casar, ela perdeu o sobrenome e adotou o sobrenome do
Januário, mas ela era da família Alencar, então Luiz Gonzaga também tem
esse sangue, da família Alencar, que é uma família tradicionalmente
relacionada com a arte. Minha avó dizia que tinha alguns ramos da
família Alencar: os nobres, os intermediários e aqueles que tinham se
misturado com o povo. Eu, na verdade, acho que o meu lado tem uma
mistura com o sangue negro, com o sangue índio e naturalmente lá da
origem dos Alencar que vieram de Portugal para povoar aquelas terras do
Exu.
3- Você trabalha muito na divulgação do Maracatu
Cearense. Como é isso ?
- Como eu falei, fui criado em Juazeiro do Norte, na minha primeira
infância, e acredito que trouxe dali o meu fascínio pela dança de rua,
pelos grupos que se apresentam na rua. Os reisados, as bandas cabaçais,
os grupos de penitentes, os bois. Então eu trouxe essa admiração por
essa arte de rua. Em Fortaleza eu acho que projetei isso no maracatu,
porque foi a manifestação da cultura tradicional que vi em Fortaleza que
mais se parecia com esses folguedos do Cariri, que é uma região
riquíssima nesse ambiente de manifestações culturais tradicionais
maravilhosas com as quais, inclusive, eu dialogo até hoje, em vários
sentidos, de produzir discos ou eventos, apresentações de grupos
variados daquela região e também uma inter-locução musical.
Costumeiramente, nas minhas apresentações musicais tem músicas do côco,
da batateiras (que é um grupo de mulheres do côco), tem músicas da Banda
Cabaçal dos Irmãos Aniceto, tem alguma coisa do Cego Oliveira, então tem
sempre essa relação no meu cotidiano como artista. E em Fortaleza, eu
acredito que foi o elo que me levou a identificar no maracatu essa
força da expressão da cultura popular. Desde cedo eu fiquei fascinado
pelo maracatu e fui ver os desfiles muitas vezes. Em 1994, eu passei a
ir com outro olhar. Nesse ano eu fui gravar os grupos com um gravador,
ainda analógico. Arranjamos fitas com o Rodger Rogério, quando diretor
da Rádio Universitária.. Era um gravador emprestado por Rosemberg
Cariry, um nágara. E aí, com Zé Homly, Nilton Fiore e Aurora Miranda
Leão a gente foi fazer o trabalho de registro dos maracatus daquele
ano. A partir de 95, eu passei, efetivamente, a cantar no maracatu.
Fui convidado por Descartes Gadelha pra cantar a Loa do Maracatu Nação
Baobá. Em 96 e 97, eu saí com o grupo Vozes da África. De 99 a 2004 eu
participei da diretoria e também como compositor de Loas para o
Maracatu Ás de Ouro e em 2004 eu fundei o Maracatu Nação Fortaleza, que
é um grupo que tem 60% dos brincantes de crianças e adolescentes. Tem
também os brincantes que são crianças com mais idade e que passam sua
experiência para os demais e é um grupo que a gente cuida com mais
carinho, pois é um trabalho centrado, focalizado. Um grupo que eu criei
a partir dessa experiência de alguns anos, dez, nove anos participando
do carnaval de Fortaleza e criamos uma página que é
www.batoque.com/fortaleza e aí colocamos informações de uma forma
geral da cultura do maracatu na cidade de Fortaleza, no estado do
Ceará. Não falamos apenas do nosso trabalho, falamos também das
questões da cultura dos afro-descendentes, da religiosidade, questão
histórica, está tudo lá. E a partir daí, eu fui levado também para um
trabalho na Federação das Agremiações Carnavalescas do Estado do Ceará
como diretor. Nós tivemos uma gestão de seis anos ali e nós procuramos
otimizar essa presença dos grupos de carnaval de rua, e até mesmo
trazer o olhar da cidade para o carnaval de rua como um evento de
importância para os festejos em que a cidade comemora os seus diálogos
com os munícipes , com seus cidadãos. Acho que nós fizemos realmente um
bom trabalho ali. A prova disso é que o carnaval passou a interessar a
outros núcleos. Nós hoje temos no carnaval de Fortaleza a presença de
dez grupos de maracatu. Conseguimos que os artistas da cidade lançassem
o seu olhar e o seu interesse para o ambiente do carnaval para tirar
qualquer tipo de preconceito ou de mística em relação a esse evento e
acredito que nós conseguimos fazer o carnaval assim como uma coisa
cotidiana, ter essa relação de pertença com as pessoas da cidade, os
artistas, as pessoas que apreciam, né ? A dia participação ou até
aqueles que vão só para fruir desse bem cultural e acredito que a gente
fez esse trabalho, procurando mostrar o maracatu como uma grande força
de nosso patrimônio cultural. Hoje a discussão sobre o maracatu é
outra, o olhar é outro, a pertinência na avaliação. Nós temos mais
grupos de jovens músicos se voltando para a ambiência, para a rítmica,
procurando ressaltar essa estética do maracatu, digamos assim. Então
isso tudo foi fruto de um trabalho longo, árduo, mas muito prazeroso.
4-Eu gostaria que você nos falasse agora sobre os
primeiros discos que você fez: Um pé em cada porto” e “Estação do trem
imaginário”.
- Eu comecei a gravar o meu trabalho ainda em vinil, no final dos anos
80. Um pouco antes eu participei de várias coletâneas. O primeiro
registro de minha música, em disco, lançado nacionalmente foi o LP
Equatorial, da Téti, onde ela não só escolheu uma canção minha em
parceria com o Fausto Nilo para ser o título do disco, como ela também
gravou uma outra música que é “Vento Rei”, uma letra que fiz para uma
melodia do Zé Maia. Foi uma grande felicidade para a minha vida, pois
eu fazia música sem muita pretensão. Eu venho de um hábito assim de
fazer música como uma expressão da minha vida. Eu procurei alternativas
como adolescente, participei de bandas de baile durante muitos anos, fui
músico profissional nesse ambiente, depois comecei a fazer minhas
canções, minhas letras, conheci algumas pessoas. A partir do momento em
que conheci Ângela Linhares, comecei a fazer shows, ela me convidou a
cantar uma música composta por mim, comecei a participar de festivais,
mas registro mesmo, em disco, aquele orgulho de ter um disco com o meu
trabalho, foi a partir da Téti. Logo em seguida, eu participei de um
outro show coletivo, com Stélio Valle, Téti, Petrúcio Maia, isso no
começo de 1979 e aí veio a Massafeira que é o ambiente ao qual eu estou
mais intimamente relacionado. Tivemos shows duranet vários dias no
Theatro José de Alencar. A gente pode dizer que foi nosso “Woodstock”,
né ? Porque foram quatro dias de muita expressão artística. Tudo que
se pode imaginar, de artesanato, de música, de cinema, literatura,
teatro, poesia. Foi a primeira vez que a arte popular do Cariri veio
dialogar com os artistas de Fortaleza. Veio o Patativa, o Cego
Oliveira, a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, o Severino do berimbau.
Ra uma turma danada e a partir daí começamos algumas reuniões, e
realmente através da produção do Ednardo e do Augusto Pontes, fomos ao
Rio de Janeiro gravar o álbum duplo Massafeira que saiu em 1980.
5- Existe algum registro disso em imagem ?
- Existe esse registro de imagens no arquivo de Ednardo, sim. Tanto
fotografia quanto imagem em movimento. Massafeira nem foi só restrito
aos cearenses. Eu me lembro que Zé Ramalho veio, Walter Franco, Jairo
Mozart, Climério, Dominguinhos, foi uma coisa muito bonita que aconteceu
em Fortaleza e eu acho até que por esse espírito coletivo dos três
primeiros trabalhos que eu fiz, contando também os outros de teatro que
eu já havia feito, tudo foi com muita gente fazendo, então me habituei a
isso. Até hoje a gente tem projetos coletivos onde muita gente
participa. As produções que eu faço, muitas delas inclusive as de maior
destaque, foram todas com a participação de uma turma danada. Uma
reunião de gente pra fazer arte da maneira mais bonita ,mais espontânea,
e sempre procurando realçar essa questão do Ceará, da nossa
cearensidade. É claro que me interessa toda a cultura do mundo, saber o
que está acontecendo , mas na hora de registrar esses trabalhos ou de
procurar um tema para um projeto ou pesquisa, eu me interesso muito
pelas coisas da nossa terra. O primeiro trabalho foi Massafeira, depois
participei de vários discos coletivos, tive músicas gravadas por outros
artistas, até que em me aventurei a fazer o meu disco mesmo. Fortaleza
já tinha condições de estúdio, onde você tem uma gravação de razoável
qualidade, então no final da década de 80 eu fiz o disco “Um pé em cada
porto”, que é o meu primeiro disco e ali também já se desenhava uma
coisa que é muito comum no meu trabalho: ele é multi-facetado, não
existe um estilo. Eu não sou um cantor de forró, nem muito menos de
reggae, nem de rock’n’roll, nem de maracatu. Isso tudo está no que eu
faço porque eu passei a vida ouvindo a riqueza maravilhosa da música do
Brasil, da música do sertão nordestino, da música que toca no rádio,
fiz parte de bandas de baile, então é muita informação, né ? Eu acho
que a gente tem que seguir aquela cartilha do Gilberto Gil quando ele
diz que “existem muitas maneiras de se fazer música popular brasileira e
eu prefiro todas”. Eu prefiro todas e mais algumas. É importante
também estar sempre atento e dialogar com essas novas formas. Por
exemplo, meu disco mais recente tem rap, elementos de música
eletrônica...diálogos com o pessoal do hip-hop. Ontem mesmo (agosto de
2007), eu fiz uma participação no disco de um grupo de hip-hop lá no
Mucuripe que é o pessoal da “Consciência Armada” e foi uma coisa super
prazerosa, foi como se nos conhecêssemos e dialogássemos há muito tempo
porque eu estou sempre atento. Como produtor musical estou sempre
procurando saber o que é que tem na música do Ceará e ouvindo outras
coisas também, para manter um diálogo com o que está sendo feito na
atualidade. Então fiz esses primeiros discos como “Um pé em cada
porto”, depois eu fiz o “Estação do trem imaginário”, dois anos depois.
E esses dois discos, eu tive a oportunidade de lançar em um CD e aí a
gente pegou os dois discos e colocou em um CD só, que foi um CD duplo
que saiu em 1992. E a partir daí eu segui registrando meu trabalho,
coletâneas de discos individuais. Já são quatro discos. O mais recente
é o disco de loas: “Loas, maracatus e cantigas de liberdade”. Estamos
agora fazendo um no ambiente de loas que vai se chamar “Costumes e
Diversões” e estou terminando o disco do “Nação Fortaleza” que é quase
como se fosse um disco meu porque eu canto as loas. Eu sou o tirador de
loas ou como dizem os antigos, “o macumbeiro” do maracatu Nação
Fortaleza e também componho, né ? Eu defino temas, a gente troca idéias
e daí eu crio a loa que a gente vai apresentar no desfile de Carnaval e
aí a gente está concluindo o CD.
Então tem esses trabalhos. Os primeiros são trabalhos em que eu tive a
oportunidade de viajar o Brasil inteiro. Não só pelas capitais, mas
também pelas cidades do interior. Tive a oportunidade de ir à Europa e
pela América Latina também. Fui duas vezes à Argentina participar de
congressos sobre a cultura afro-descendente, realizar palestras, então
realmente me dediquei a esse foco do maracatu como uma maneira de
realçar essa cultura que há em Fortaleza e que estava um pouco
adormecida. Realçar os tambores da terra de José de Alencar.
6- Eu queria saber sobre o projeto “80 anos de Lauro
Maia”. Você convidou Fagner para participar e ele canta “Trem de
Ferro”. Como foi o convite e a receptividade dele ?
- Tem uma história engraçada porque já estava acontecendo o projeto, já
havíamos convidado algumas pessoas e Fagner, por ser um artista com uma
carreira até internacional, é um cara que tem muita ocupação e às vezes
é até um pouco difícil se ter acesso, porque na época em que fazíamos o
projeto Lauro Maia (1993), ele ainda morava no Rio de Janeiro.
Atualmente ele mora mais aqui no Ceará do que lá, né ? E daqui ele
programa a vida dele, mas naquela época, ele ficava muito lá, era
difícil a gente encontrar e tal. E ele vio na época do projeto Lauro
Maia, e numa entrevista, me parece que na TVC, da qual estava
participando o jornalista Nelson Augusto, que também é um jornalista do
ambiente musical, o Nelson, no ar, perguntou se Fagner toparia
participar . Parece que estava acontecendo lá o assunto em que Fagner
dizia que gostaria de participar mais de coisas relativas ao Ceará e o
Nelson pegou a deixa, já conhecia o projeto que estava em andamento e
fez esse convite ao Fagner, no ar. E ele aceitou. O Nelson me avisou
logo em seguida que o Fagner tinha aceitado o convite e aí eu fiquei à
vontade para convidá-lo e ele foi de uma elegância assim, participou de
nosso trabalho. O único compositor cearense que ele gravou foi o Lauro
Maia e aí eu tinha essa gravação do Lauro Maia e mostrei a ele. Ele
adorou assim, de cara, e foi aquela canção que ele escolheu, acho que
pela beleza da gravação de João Gilberto e ele, ao gravar com Roberto
Menescal, acho que re-criou ali aquele ambiente da marchinha que João
Gilberto criou com harmonias muito bem elaboradas, tanto é que a canção
abre um show que ele levou para o Japão no mesmo período em que a gente
fazia o projeto Lauro Maia. Ele se apaixonou pela canção e foi ótima a
participação dele. Ele esteve conosco no show de lançamento no BNB
Clube e sempre foi um cara muito atencioso com esse projeto e acho
também que ele, ao ser uma pessoa que tem a referência da história da
música do Ceará, ele também tinha consciência da importância do Lauro
Maia, que é, na verdade, um compositor que pela primeira vez vai
projetar a música popular do Ceará para o resto do Brasil, chegando
inclusive a ser gravado fora de nosso país. O Lauro foi gravado na
Europa e também na América Latina. Um cara que foi gravado por Orlando
Silva, mesmo morando em Fortaleza. Isso é como se você fizesse o gol
que Pelé não fez, né ? É um feito extraordinário. Morando em Fortaleza
nos anos de 1940, conseguir ser gravado por Orlando Silva, que era um
grande ídolo da música popular brasileira,o cantor das multidões. Eu
acho que o Fagner reconheceu que estávamos ali realmente tratando de um
assunto de vital importância para o registro de um pedaço super
importante da historia da música do Ceará e foi super atencioso. Em
todos os momentos ele participou. Inclusive , a gravação dele, isso não
está dito em lugar nenhum, vou dizer agora, ele fez em um estúdio no Rio
de Janeiro, não custou um centavo ao projeto. Ele trouxe o DAT, gravado
na Companhia dos Técnicos. Foi uma forma dele participar do projeto
dessa maneira também. Além de participar do projeto efetivamente como
artista, ele nos trouxe de presente a faixa já gravada, com o violão
maravilhoso do Roberto Menescal, ele cantando e mais um músico tocando
percussão. A minha relação com ele tem se dado em outros momentos
também. Uma convivência muito elegante. Sempre que a gente se encontra
é uma coisa prazerosa, do ponto de vista de um diálogo musical, mesmo
nós sendo de gerações distintas. Ele tem uma ligação com o “pessoal do
Ceará” e eu, como falei, venho de uma década depois, do pessoal da
Massafeira, mas sempre dialoguei muito com pessoas ligadas a ele, fiz
músicas com Fausto Nilo, tenho grande amizade com Ricardo Bezerra,
Petrúcio Maia era como se fosse um irmão que tive na vida. Sempre
tivemos um diálogo legal. Depois nos encontramos para um trabalho sobre
Patativa do Assaré , e também foi muito interessante a gente conviver
naquele momento, porque ele estava no Rio, e eu aqui. A gente trocava
muitos idéias sobre a produção do evento, sobre a direção artística, que
pessoas convidar para aquele momento. Fizemos um trabalho no Centro de
Convenções que foi muito bonito e foi registrado pela TVC e virou um
especial depois. Foi uma coisa super legal e prazerosa. Ele é um cara
que admiro. Tem uma história também , de 1976, que eu acho
interessante registrar. Eu tinha escutado o disco “Raimundo Fagner”,
que tem inclusive uma música que eu regravei depois, cantando com a Tetê
Espíndola, que é “Além do Cansaço”, do Petrúcio Maia e do poeta
Brandão. Então esse disco tinha sido lançado e Fagner veio à Fortaleza
e ia fazer um show no Instituto Penal Paulo Sherazade, em Pacajus. Na
época, eu tinha um equipamento de som e Luiz Cruz, que era diretor da
biblioteca circulante, me pediu emprestado e levei, com o maior prazer,
pois ia ver um show de Fagner. E eu gravei uma fita desse show.
Inclusive pedi à ele que cantasse a música “Quatro Graus” e ele atendeu
na hora. Apresentou essa canção que eu admirava de um disco que eu
tinha que era a apresentação dessa música no Festival Internacional da
Canção, acho que de 72, né ? E aí ele cantou , eu achei ótimo e fiquei
encantado coma generosidade daquele artista que eu admirava. Já era o
terceiro disco dele, já vinha de “Manera Fru Fru”, depois “Ave Noturna”
e “Raimundo Fagner”, com Wagner Tiso, Robertinho Silva, um time de
músicos assim, Robertinho de Recife, acho que Manasses, Tuti Moreno, era
uma banda assim, coisas que eu via em discos de Milton Nascimento,
Caetano, Gil e estavam ali, tocando com Fagner aquelas músicas
maravilhosas, como Paulo Moura, ele estava cercado de gente da melhor
qualidade. Esse disco realmente é muito lindo. E aí, fui lá, levei o
som, gravei a fita mas, infelizmente, essa fita se perdeu no tempo.
Emprestei para uma amiga e ela nunca mais voltou e aí fiquei sem esse
registro. Mas essa foi a primeira oportunidade que tive de vê-lo,
conversar com ele, depois eu levei a fita na casa dele, ele ouviu e me
devolveu. Não sei se ele fez cópia, na época a gente fazia cópia de
cassete para cassete, analógico, de qualidade bem precária, mas enfim
foi uma forma de conhecê-lo. Depois ele foi no evento “Massafeira” em
que ele também participou, depois eu o vi na organização do “Soro” , do
qual ele foi o coordenador. Sempre acompanhei a carreira dele e nos
encontros, nessas ocasiões, sempre foi uma coisa muito legal, positiva,
prazerosa.
7- E o disco “Equatorial” ?
- O LP “Equatorial” é da época em que o Fagner estava na CBS, no selo
EPIC, e produziu vários discos de cearenses. Produziu essa da Téti e
claro, ele ouviu esse trabalho meu que ela gravou que foi o título do
disco, ele canta com ela no disco a música do Petrúcio. Então acho que
a gente sempre esteve ligado até sem estar presente pessoalmente. Nós
estamos fazendo música do mesmo estado, eu sempre acho, claro, que eu
tomo mais conhecimento das coisas dele que ele das minhas, mas sempre
que é possível, como nessas ocasiões em que relacionei aqui, sempre
convivemos com muito respeito e admiração e acredito que o fato,
inclusive de eu ter regravado uma música que ele já havia gravado também
nos aproximou. E também o trabalho que a gente faz sobre o Patativa ,
ele, durante muitos anos, e eu depois, produzi três trabalhos com a
obra do Patativa do Assaré, esse espetáculo que nós fizemos no Centro
de Convenções, tudo isso nos aproxima e faz com que nos tornemos
irmãos, musicalmente.
8 – E agora que Fagner está morando em Fortaleza, você
vê a possibilidade de um dia ter uma parceria com ele ?
-Não sei, na verdade a gente define muito o raio de ação, né ? Eu
atualmente tenho usado a minha energia de uma forma mais contundente em
relação ao ambiente do Carnaval. Tenho continuado a minha carreira,
continuo os meus shows, o repertório mais variado com essa visão mais
geral da estética musical, mas eu tenho a impressão de que de alguma
maneira a gente faz muito pela música do Ceará, né ? Isso já é uma
forma de sermos parceiros, irmãos da mesma terra, né ? Se aparecer
alguma oportunidade de fazermos algo juntos, vai ser desfrutado, fruído
assim com um prazer imenso, claro, porque as pessoas que de alguma
maneira despontam como grandes talentos, é sempre super legal que ela
possam estar por perto. Eu tenho uma vontade enorme de estar com todos
esses cearenses ou não, de grande potencial e talento próximos a mim,
que eu possa ser parceiro, ter um diálogo, mas acho que a gente
acompanhando mesmo, já está mandando uma energia boa, está sempre
evidenciando. A maneira de estar sempre falando do Ceará, de ressaltar
essas pessoas é uma maneira também da gente estar junto. Inclusive, tem
uma oportunidade agora de nós estarmos juntos, sem estarmos
pessoalmente dialogando, que é o projeto da Denise Dumont, de realização
do filme “O Homem que engarrafava nuvens”, que é um filme sobre o
Humberto Teixeira, onde eu gravei um depoimento e, naturalmente Fagner
participa e aí nós estamos mais uma vez ali, usando nossa força, a nossa
voz, a nossa música pra dizer o quanto a gente acredita na arte do povo
cearense.
9 – E porque esse título tão curioso do filme ? Você
pode explicar pra gente ?
- Eu conheço isso mais a fundo porque eu editei pela primeira vez o
depoimento de Humberto Teixeira para o pesquisador Nirez (Pesquisador e
colecionador de discos do Ceará. Um dos maiores acervos de 78 rotações
do Brasil). Eu soube no processo do projeto Lauro Maia, que era
cunhado de Humberto Teixeira e que compôs com ele “n” músicas, que o
Nirez tinha um depoimento em fita de rolo, guardado há muito tempo. E
aí, no processo de fazer o Lauro Maia, eu me interessei também por esse
depoimento. Transcrevi, eu mesmo, ouvi horas e horas de fita cassete
que o Nirez gravou do rolo para o cassete. Ouvi tudo e à mão mesmo,
transcrevi o depoimento. Eu tenho os cadernos guardados. Depois
datilografei, foi pra composição, fizemos um livrinho com o depoimento
de Humberto Teixeira. Eu fiz isso com um prazer tão grande porque eu
ficava ouvindo a voz do Humberto Teixeira, ele cantando aquelas canções
maravilhosas, pérolas da música popular brasileira, coisas assim
antológicas. Eu fiz aquilo muito mais como uma farra do que um trabalho
porque ficar ouvindo a voz de um homem que ficava por trás de Luiz
Gonzaga, você não ouvia a voz dele... Ele era o autor daquelas canções
junto com Luiz Gonzaga, mas Luiz Gonzaga é a “voz”, né ? O que deu eco
a todo esse trabalho de poesia , de música, de estórias do Nordeste,
tudo, e a voz de Humberto Teixeira era uma coisa nova, super musical.
Você descobrir que o sujeito não era só um letrista, era um cara que
tinha estudado música, que tocou bandolim, piano, sabia ler partituras,
uma história maravilhosa. Aí, no final do depoimento, ele como poeta,
diz que tem uma casa na Gávea onde ele fica brincando com a filha e que
ele gosta de ficar lá, engarrafando nuvens. É uma forma poética dele
dizer que como ficava à vontade em casa, brincando com a filha.
Nesse processo todo, tem uma história interessante: eu ganhei de
presente de uma prima dele lá de Iguatú, Marlene, uma fita com uma
gravação de uma música que ele dez para a Denise e antes disso, eu havia
ganho uma fita, de Evaldo Gouveia, que era de rolo e passou para cassete
e um dia fui ouvir , e era a mesma canção da fita da Marlene, só que
mais antiga e que tinha o Humberto Teixeira dizendo ao Evaldo como é que
devia tratar aquela canção, que falava disso, que tinha feito para a
filha Denise. E um dia eu dei de presente isso para a Denise Dumont,
filha dele, e foi a primeira vez que essa menina tomou conhecimento
desse presente que o pai deixou para ela. Isso eu tenho como uma das
maiores alegrias da minha vida. Ter feito retornar para ela uma canção
que o pai dedicou à filha e que veio parar nas minhas mãos, Deus sabe
porque motivo, porque energia cósmica isso veio parar nas minhas mãos e
eu, com total desprendimento , fiz chegar de volta o recado para o
coração para o qual tinha sido mandado no início.
Ela ficou muito emocionada, inclusive ela estava com o Lyrio Ferreira
que é o diretor do filme e ele estava sem a câmera e ele disse: “Rapaz,
perdi o início do filme !” E foi assim que ganhei mais uma amiga. Eu
acho que a energia boa que a gente manda para o universo, volta, mais
colorida, mais bonita.
Eu tenho dialogado também com Ednardo, até porque me aprofundei nesse
trabalho de pesquisa, convivência do Maracatu, então a gente vai como
todos os outros. Fausto, com quem já compus, vou acompanhando a
carreira, Nonato Luiz, mesmo que a gente não tenha feito nada juntos, a
minha relação com Nonato é como se fosse um irmão. A gente tem um bem
querer que você nem imagina. Um cara que adoro, e ele também demonstra
gostar muito de mim. Às vezes conviver é até mais do que fazer uma
canção juntos, a gente é amigo, irmão e parceiro. |